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A Agricultura Familiar comemora avanço do beneficiamento da pluma de algodão e a produção de alimentos em transição orgânica no Alto Sertão de Sergipe

Por Ita Porto


As famílias agricultoras do Alto Sertão Sergipano comemoraram, mais uma vez, o avanço da caminhada na produção de alimentos e de algodão nos consórcios agroecológicos. O “divisor de águas” foi a implementação de uma miniusina para o descaroçamento do algodão em transição orgânica (pluma e caroço) no âmbito do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos. O projeto é uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria com o projeto AKSAAM/FIDA/UFV/IPPDS/FUNARBE, o Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC) e a Universidade Federal de Sergipe (UFS), Campus Sertão, localizado em Nossa Senhora da Glória (SE).

Com o restabelecimento da parceria do FIDA através do AKSAAM, a Associação de Certificação Orgânica Participativa de Agricultores e Agricultoras do Alto Sertão de Sergipe (ACOPASE) recebeu uma miniusina de algodão modelo MBS-100R, com prensa e máquina de 20 serras de 12 polegadas, mais reboque emplacado, para suprir a necessidade do descaroçamento e enfardamento da pluma de algodão. Até então, este processo era feito no estado de Alagoas, gerando alto custo financeiro e demandando mais tempo e dedicação das famílias. A chegada e instalação do maquinário nas dependências da Associação do Assentamento Zé Emídio, uma das associadas da ACOPASE, facilitou a logística do beneficiamento da pluma de algodão para agricultores e agricultoras participantes do projeto.

As famílias se prepararam para a instalação da miniusina participando de um momento de formação sobre as etapas de descaroçamento da pluma, através de um intercâmbio de aprendizagem no Assentamento Vila Lafaiete, na cidade de Monteiro (PB), em parceria com as famílias agricultoras da Associação Agroecológica de Certificação Participativa do Cariri Paraibano – ACEPAC. Na ocasião, participaram do momento de formação o agricultor Humberto Vieira e a agricultora Janea da Silva, que se capacitaram para o manuseio do maquinário, juntamente com o assessoramento da organização parceira na execução do projeto naquele território e um técnico da Universidade Federal de Sergipe. “Foi muito bom para gente porque vivenciamos mais uma experiência com o novo equipamento, com resultados positivos, inclusive de repasse das informações para as outras famílias agricultoras das comunidades, das coordenações dos grupos de produção, para que também conheçam o funcionamento da miniusina, para que na próxima safra mais agricultores e agricultoras possam estar aptos a fazer o descaroçamento da sua produção. Foi muito importante todo esforço das parcerias para que a gente conseguisse o maquinário e, a partir daí, estimular outras famílias a se inserirem no projeto e acreditar que as cosias dão certo”, disse Seu Humberto.

Vencidos os desafios de acomodar o maquinário e garantir a formação das pessoas que se responsabilizarão pelo processo, no dia 10 de março desse ano, com muito entusiasmo, deu-se início ao processo de descaroçamento da safra de algodão em transição orgânica 2020. De pronto já foi possível verificar as vantagens da aquisição, que reduziu significativamente as despesas com deslocamento e alimentação; eliminou a figura do atravessador, fortalecendo a autonomia das famílias agricultoras na negociação da pluma diretamente com as empresas compradoras; e possibilitou a utilização do caroço para alimentação animal, tendo em vista que o território é a principal bacia leiteira do estado de Sergipe.

Foram descaroçados 6.760,55 quilos de algodão em rama, que resultou em 2.557,22 quilos de pluma, gerando 31 fardos de pluma de algodão (em média 80 quilos cada). Além disso, as famílias ficaram com 4.130,40 quilos de caroço, beneficiando diretamente 51 famílias participantes do projeto no ano de 2020. A comercialização da pluma em transição orgânica foi destinada à empresa VEJA/VERT, ligada ao comércio justo e mercado orgânico. A ACOPASE está em pleno processo de conquista da certificação orgânica junto ao Ministério da Agricultura (MAPA). A expectativa é que a safra de 2021 já possa ser comercializada com a certificação orgânica participativa.

O processo de descaroçamento teve duração de dez dias e contou com a participação de representantes de todos os grupos participantes do projeto, tendo, ao final de cada dia, uma avaliação da experiência. “Foi notória a satisfação das famílias do Assentamento Zé Emídio por estarem recebendo a miniusina, juntamente com a acolhida de agricultores e agricultoras de outras comunidades, que tiveram a oportunidade de conhecer o passo a passo do processo do descaroçamento da sua produção e voltarem para casa com sua produção de caroço”, comentou a técnica Milena Lima/CDJBC, que acompanhou todo o processo.

Para a agricultora e presidenta da ACOPASE, Iva de Jesus Santos, esse novo passo na evolução da cadeia de produção do algodão em bases agroecológicas só reafirma a força do povo nordestino. “Para mim foi uma emoção grande ver nosso algodão saindo da nossa própria máquina. Essa máquina que foi um sonho e agora se torna uma bonita realidade. Meu desejo é que a cada dia agente cresça enquanto ACOPASA, trilhando esse caminho de construção do saber coletivo. A alegria é muito grande de ver nossos agricultores e agricultoras fazendo o processo acontecer e mais gratificante ainda é saber da consciência de cada um/a em plantar sem usar produtos químicos. Enquanto camponesa e agroecóloga, me sinto muito feliz nesse caminhar”, completa Iva.

A Universidade Federal de Sergipe (Campus do Sertão) também teve participação ativa nesse processo, com a disponibilização de um técnico para instalar a miniusina e monitorar todo o seu funcionamento, além de colaborar com a parte logística de operação do descaroçamento e enfardamento. Para o coordenador do projeto pela UFS, Prof. Felipe Jalfim, “foi um passo emblemático na trajetória do projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos no Alto Sertão sergipano, pois o beneficiamento da produção, condição essencial para comercialização em condições mais favoráveis, é um dos principais desafios para a agricultura familiar do nosso território e, talvez, de todas as regiões do Brasil”.

O coordenador geral do projeto, Fábio Santiago, avaliou que “é um passo histórico no resgate do algodão na região do alto sertão sergipano. É a primeira vez que uma associação de famílias agricultoras executa o avanço da cadeia de valor com a comercialização da pluma de algodão em transição para o mercado orgânico e comércio justo. O preço de R$ 12/kg da pluma em transição orgânica e os prêmios sociais (R$ 2/kg para cada família e R$ 2,5/kg para ACOPASE) são animadores para a manutenção das famílias na produção ano e ano, e ao mesmo tempo avançar na inclusão de novas famílias. A aquisição do maquinário pelo projeto contribui para equilibrar o processo de descaroçamento de algodão no âmbito dos territórios”.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a AKSAAM/FIDA/UFV/IPPDS/FUNARBE e a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória) e organizações parceiras nos territórios de atuação do projeto. O projeto conta com o apoio técnico e financeiro da Laudes Foundation.

Para a execução do projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGS locais com experiência em Agroecologia que são responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os OPACS e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, é a Caritas Diocesana de São Raimundo Nonato que desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e Chapada assumiram conjuntamente as ações do projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro, respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do projeto.