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Alto Sertão Alagoano comemora sua primeira Festa da Colheita e certificação participativa das famílias

Por Tadzio Estevam


Agricultores e agricultoras exibindo o certificado de formação entregue durante a festa. Fotos: Acervo projeto Algodão

O Semiárido Alagoano – território marcado pela resistência histórica de um povo lutador -, comemorou a volta do plantio do “Ouro Branco” e de outras culturas consorciadas como feijão, milho e gergelim que fazem parte do projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos. Na última quinta-feira (12), as famílias agricultoras que abraçaram a iniciativa realizaram a I Festa da Colheita do Alto Sertão Alagoano celebrando, também, a finalização da formação de Certificação Participativa e a relação dos agricultores e agricultoras que serão incluídos e incluídas no Sistema Participativo de Garantia (SPG). A Festa da Colheita aconteceu nas dependências da Cooperativa de Pequenos Produtores Agrícolas dos Bancos Comunitários de Sementes (Coppabacs), no município de Delmiro Gouveia, sertão de Alagoas, e contou com as presenças de representantes da Embrapa, governo municipal de Inhapi, Colegiado Territorial do Alto Sertão de Alagoas, Diaconia e da Coppabacs.

Durante a programação foram entregues os certificados aos agricultores e agricultoras que participaram dos módulos da formação sobre a Certificação Participativa. Esse processo garante que os produtos estão em transição agroecológica. Ele é feito pelos próprios agricultores e agricultoras através das comissões de ética local e comissões de verificação que abrangem a revisão de pares na perspectiva da certificação participativa. A partir desse processo, é possível relacionar as famílias que exercitaram o funcionamento do SPG que vem sendo construído no Alto Sertão Alagoano para a constituição do Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade (OPAC). “Essa construção participativa é o nosso alicerce. Não tenho dúvidas que esse projeto vai dar muito certo aqui em Alagoas porque ele foi construído a partir das nossas necessidades, a partir dos nossos anseios, do nosso sonho. Vamos mudar a nossa condição de vida”, disse a agricultora que integra a Comissão de Verificação Participativa, Rosana Alcântara.

A agricultora Maria de Lourdes fez um resgate histórico emocionado do território alagoano

De acordo coma a agricultora e educadora Maria de Lourdes Barreto, da comunidade Terra do Sol, em Delmiro Gouveia, a celebração da colheita vai além do projeto. Está relacionada à luta do povo. “Este território sempre foi um espaço de resistência. Na década de 80, foi aqui o primeiro território a reivindicar melhorias para a agricultura familiar no estado de Alagoas. Ainda na década de 80 surgiu aqui no território a direção estadual do MST com o primeiro assentamento. Nascia também a primeira instituição que representou as famílias agricultoras na luta pelo direito à água de beber, juntamente com a ASA, a Coppabacs. Temos muitas histórias de lutas e de conquistas. E há um ano e meio recebemos a Diaconia para dialogar uma nova proposta de plantio em nosso território com bases agroecológicas. E foi por conta dessa oportunidade que hoje estamos aqui celebrando mais uma conquista para todas essas famílias agricultoras”.

A agricultora chamou atenção para um detalhe. “As organizações envolvidas nesse projeto poderiam ter chegado com milhões de reais aqui no nosso território. Mas se não fosse para construir uma proposta coletivamente, nada disso estaria acontecendo, porque acreditamos que somente através da participação coletiva é que nós conseguimos as coisas, conseguimos nos empoderar, não aceitar que alguém chegue aqui determinando o que nós devemos fazer. Nós também somos doutores e doutoras dentro das nossas propriedades”.

Fábio Santiago, ao lado da técnica do Instituto Palmas, Ana Cristina Accioly, comemorando as conquistas das famílias no acesso ao Sistema Participativo de Garantia (SPG)

Fábio Santiago, coordenador do projeto do algodão pela Diaconia, comemorou a colheita alagoana sob vários aspectos. “A retomada do plantio do algodão e demais culturas consorciadas neste território significa muito para a agricultura familiar de um estado nordestino que é muito forte, a começar pela sua própria bandeira onde é possível encontrar a imagem da cana de açúcar e do algodão. Aqui já existia um movimento forte na agroecologia. Também encontramos um espaço colegiado forte, enraizado e de muitas conquistas. Por isso, lutamos junto ao financiador para incluir Alagoas no escopo do nosso projeto e animamos as famílias para acreditarem na volta do plantio do algodão no Alto Sertão trazendo, além de outros benefícios, o conhecimento para as famílias através das nossas organizações parceiras como o Instituto Palmas e a Embrapa Algodão. O grande legado que deixaremos com esse projeto será o de proporcionar aos grupos locais a autonomia para a certificação participativa. Outro ganho dele é a comercialização desses produtos como o algodão que antes mesmo de ser colhido já foi comprado por uma empresa francesa – Vert. Ver todo esse processo se solidificando aqui no estado nos enche de alegria”.

Após as falas e entrega dos certificados foi a hora de comemorar a boa safra. Um jantar foi servido para as famílias e uma atração cultural comandou a noite.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Embrapa Algodão e a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória). O projeto conta com o apoio técnico e financeiro do Instituto C&A.

Para a execução do projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONG’s locais com experiência em Agroecologia que serão responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os OPAC’s e a produção agroecológica.

No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONG’s Caatinga e Chapada assumiram conjuntamente as ações do projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro, respectivamente.

No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do projeto.