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Beneficiamento do gergelim deve aumentar a renda de 40 famílias agricultoras no Alto Sertão Sergipano

Por Acsa Macena


A iniciativa busca fortalecer o sistema de policultivo do algodão, aumentar o valor agregado ao gergelim e contribuir para a segurança alimentar através da comercialização de produtos em transição para certificação orgânica participativa

Em meio ao Alto Sertão de Sergipe, região semiárida do nordeste brasileiro, os grãos de gergelim vêm trazendo esperança e motivação para mais de 40 famílias agricultoras vinculadas ao Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos no estado. Isso porque já é possível vislumbrar a comercialização de produtos em transição para certificação orgânica participativa a partir da oleaginosa. Entre eles estão o óleo, o gergelim natural, o gergelim granulado e o tahine, uma pasta de sementes com alto valor nutricional e comumente consumida em pães, biscoitos e torradas.

Alimentos produzidos pela Associação de Certificação Orgânica Participativa do Alto Sertão de Sergipe (ACOPASE) através do beneficiamento do gergelim

Para a agricultora Maria Aparecida da Silva, de 57 anos, conhecida como Cida, que é vinculada à Associação de Certificação Orgânica Participativa do Alto Sertão de Sergipe (ACOPASE), vai ser possível gerar renda e incentivar hábitos alimentares saudáveis para a população, uma vez que as sementes de gergelim são cultivadas sem agrotóxicos e em observação aos requisitos da certificação orgânica participativa. “Nós temos bastante gergelim, então a minha expectativa é a produção do óleo desse alimento em maior quantidade. Queremos agregar ainda mais valor ao nosso produto. Já outras famílias agricultoras querem produzir o óleo para uma alimentação mais saudável”, afirma Cida.

Só para se ter uma ideia, o cultivo do gergelim no país teve um aumento de 230% em apenas um ano, segundo dados da  Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA). Já nos últimos dez anos, o aumento da produção foi cerca de 20 vezes maior do que as cinco mil toneladas registradas em 2010. Em observação ao potencial desse alimento, o coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos da Diaconia, Fábio Santiago, explica que a inciativa do beneficiamento dos grãos é uma estratégia para gerar o avanço da cadeia de valor de produtos como o gergelim em bases agroecológicas.

“A ideia principal é fazer com que o policultivo, onde o algodão ocupa 50%, possa servir para segurança alimentar e entrar na comercialização para aumentar a renda de famílias agricultoras. Além disso, queremos contribuir para a oferta de alimentos mais saudáveis para a população local, tendo em vista que o grão do gergelim ocupa uma posição nutricional muito importante para a alimentação das pessoas, sendo rico em fibras, proteínas, fósforo, magnésio, cálcio, entre outros”, observa Santiago.

Produção do tahine, pasta feita a partir do gergelim pelas famílias agricultoras da ACOPASE

O processo de beneficiamento do gergelim, que consiste na transformação das sementes em produtos para consumo, foi viabilizado pelo Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, coordenado pela Diaconia, e em parceria com a Universidade Federal de Sergipe (UFS) – Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE e o Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC). Assim, a inciativa possibilitou a compra de equipamentos adaptados à agricultura familiar para produção de óleo e outros produtos derivados da oleaginosa, através de recursos do Fundo de Incentivo Produtivo e Ambiental – FIPA.

Entre os equipamentos adquiridos estão uma mesa de inox, balança digital, prensa para extração do óleo, embalagens para os produtos, torrador para produção do gergelim torrado e soprador para fechar embalagens. “Isso faz parte de uma pesquisa realizada nos territórios e que vem contribuindo também em rede com outros Organismos Participativos de Avaliação de Conformidade Orgânica (OPACs), desde a logomarca à questão da embalagem e rotulagem. Isso vai contribuir para maior aproximação da comercialização via ACOPASE para a sociedade civil local”, afirma. 

Balança digital é utilizada por agricultora para auxílio no processo de beneficiamento

Além disso, uma oficina foi ministrada por professores pesquisadores do campo da agronomia e agroindústria da UFS/Campus Sertão para orientações sobre limpeza, qualidade da pós-colheita e seleção dos grãos, cuidados com o manuseio dos alimentos e procedimentos para o fechamento das embalagens. Segundo o professor da UFS, Maycon Reis, um dos organizadores da oficina, “o intuito foi capacitar os membros da ACOPASE para que possam fazer uso dessas tecnologias de forma profissional para agregação de valor aos seus produtos. Estamos confiantes de que na safra deste ano teremos um aumento muito grande da produção, uma vez que os agricultores e agricultoras vêm que o produto será beneficiado por eles na associação em que fazem parte. Assim, eles e elas aumentarão a área plantada e terão todos os cuidados na obtenção de um produto de qualidade que será bem recebido pelo mercado”, afirma.

A escolha por beneficiar o gergelim justifica-se pela facilidade no tratamento dos grãos e sem necessidade de registro, haja vista que não há incremento de insumos externos. “Dentro do roçado temos outros grãos, mas a escolha do gergelim tem um aspecto bem estratégico, como diz o Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão, e concordamos com ele, porque o beneficiamento é mais simplificado, não há adição de outros ingredientes. Além disso, tem baixo custo de manejo e teve uma adaptação muito boa no território, dentro do ciclo do algodão”, observa o Prof. Maycon Reis.   

Explicação do uso de equipamentos para o beneficiamento do gergelim pela equipe da UFS

A oficina foi direcionada aos agricultores e agricultoras vinculados à ACOPASE, que com o apoio do Projeto Algodão, está estruturando a cadeia de valor dos produtos do consórcio para geração do Selo Orgânico Brasileiro. Só para se ter uma ideia, as famílias agricultoras produzem outras culturas alimentares em consórcio com o algodão, como o milho, feijão, girassol, amendoim, feijão de porco e feijão de corda, demonstrando a diversidade de produção e a alta capacidade do manejo da agricultura familiar.

“Para a associação significa um grande avanço no que se refere a organização das atividades internas, mas também para fora da ACOPSE. Hoje temos a pluma do algodão que já comercializamos. Alguns agricultores e agricultoras vendem o feijão e o milho nas feiras livres e na cesta camponesa do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).Nossa expectativa é que em breve venderemos óleo e outros produtos derivados do gergelim”, acredita a presidente e agricultura multiplicadora da ACOPASE e formada em agroecologia, Iva de Jesus.

As ações de formação da UFS no beneficiamento do gergelim em prol do fortalecimento da ACOPASE potencializam a integração do uso de tecnologias poupadoras de mão nos consórcios agroecológicos do algodão em unidades familiares produtivas (UFPs), controladas pelo Sistema Participativo de Garantia (SPG), como mini tratores, plantadeiras, roçadeiras e colheitadeiras aspirantes. Dessa forma, a partir da parceria com o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) –Organização das Nações Unidas (ONU), através do AKASAAM/IPPDS/UFV/FUNARBE, foi possível investir em tecnologias para agricultura familiar, gerando redução de mão de obra, autonomia do preparo da terra, maior taxa de aproveitamento das chuvas, menor impacto sobre o solo e maior aproveitamento da matéria orgânica. Assim sendo, espera-se manter ao longo do tempo a capacidade produtiva do solo.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). O Projeto conta com o apoio financeiro da Laudes Foundation, da Inter-American Foundation (IAF) e do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE. O Projeto ainda é parceiro com o Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/Governo do Paraguai/IBA. Para a execução do Projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGs locais com experiência em Agroecologia que serão responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânico (OPACs) e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó da Paraíba. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e Chapada assumiram conjuntamente as ações do Projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.