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Conjunto de experiências do Projeto Algodão será vivenciado no Paraguai como referência para a agricultura familiar na América Latina

Por Acsa Macena


A expectativa é que seja instalada uma unidade piloto com mulheres agricultoras paraguaias, a partir do modelo de sustentabilidade desenvolvido pelo Projeto Algodão e coordenado pela Diaconia. A cooperação técnica foi firmada com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e Agência Brasileira de Cooperação do Ministério de Relações Exteriores (ABC/MRE) e o governo do Paraguai

A partir da construção coletiva de saberes com as famílias agricultoras do Semiárido nordestino há mais de quatro anos, o conjunto de boas práticas e experiências no cultivo do algodão em consórcios agroecológicos servirá de modelo para o Paraguai. Isso porque a Diaconia, a partir do trabalho conjunto com ONGs parceiras, setor acadêmico, organizações de base da agricultura familiar e outras, firmou parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), sendo a única organização social do país a participar do Projeto +Algodão.  A iniciativa está inserida no Programa de Cooperação Internacional Brasil-FAO, que desde 2013 busca impulsionar o desenvolvimento sustentável da cadeia algodoeira na América Latina.

“Institucionalmente, esse convite é um reconhecimento de que o que estamos desenvolvendo aqui no Brasil, especialmente no Semiárido do Nordeste, tem tido resultados que podem ser referência para outros países, especialmente da América do Sul, que tem realidades semelhantes aos territórios em que trabalhamos. Ao mesmo tempo, a cooperação representa para nós um processo de incidência importante para políticas públicas que podem ser assumidas como instrumentos que contribuam efetivamente para a melhoria da qualidade de vida de populações vulneráveis, sejam elas do Brasil ou em outros países”, afirma Waneska Bonfim, coordenadora político-pedagógica de Diaconia.

Waneska Bonfim, coordenadora político-pedagógica de Diaconia, em visita à agricultora multiplicadora Lucineide Cordeiro, comunidade Laje do Gato –  Afogados da Ingazeira/Sertão do Pajeú-PE
 

Sendo assim, através da experiência com a certificação orgânica participativa, incentivo ao mercado orgânico e comércio justo para o fortalecimento dos OPACs, o modelo de sustentabilidade implementado pelo Projeto Algodão poderá incentivar práticas agroecológicas de países latino-americanos, servindo de referência para o cultivo do algodão no Paraguai, cujo modelo de produção ainda segue o uso de transgênicos, em sua maioria, conforme explica América González, coordenadora do Projeto +Algodão/FAO no Paraguai.

“Os atuais modelos de produção dos pequenos produtores é o modelo tradicional convencional e com os transgênicos, os grandes produtores fazem um modelo mecanizado extensivo com os transgênicos”. González ainda explica que entre as principais necessidades a serem atendidas pela cooperação estruturada, espera-se que “as mulheres agricultoras melhorem sua produção e iniciem o processo de certificação”, diz.

Famílias agricultoras realizam a colheita do algodão com certificação orgânica participativa no semiárido nordestino

De acordo com o coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos/Diaconia, Fábio Santiago, “a pretensão é apoiar o funcionamento de um Sistema Participativo de Garantia (SPG) por grupos de famílias agricultoras no controle da qualidade orgânica em Unidades Familiares Produtivas (UFPs), envolvendo o fortalecimento da organização social, o uso de protocolo de regras e boas práticas para a produção do algodão consorciado com culturas alimentares, geração e disseminação de conhecimento”, explica.

Famílias agricultoras, coordenação do Projeto Algodão e equipe técnica em plantação de algodão consorciado em Sítio Cupim, Ipubi – Sertão do Araripe/PE

Para que isso seja possível, será implementada uma metodologia que busca dialogar com o “aprender fazendo” através de “formações modulares; acompanhamento do ciclo natural dos consórcios e giro do Sistema Participativo de Garantia (SPG); uso de tecnologias poupadoras de mão de obra; gerenciamento do SPG pelo uso de software; criação de Fundo Rotativo Solidário (FRS) e Fundo de Incentivo à Autonomia Financeira (FIAF); avanço da cadeira de valor dos demais produtos; comercialização do algodão para comércio justo e mercado orgânico e intercâmbios”, observa Santiago.

Agricultora Multiplicadora Maria Aparecida testa tecnologia poupadora de mão de obra (microtrator) entregue pelo Projeto Algodão na comunidade Lagoa da Volta – Porto da Folha/ Alto Sertão de Sergipe

Para a coordenadora do Projeto +Algodão, Adriana Gregolin, a parceria da Diaconia propõe importantes contribuições institucionais e técnicas. “Na perspectiva institucional é muito importante ter uma organização não-governamental que implementa com o setor privado projetos de desenvolvimento rural sustentável. No ponto de vista técnico, os aportes de Diaconia ao Projeto +Algodão em Paraguai nos oferece a oportunidade de intercambiar conhecimentos sobre um modelo de produção e negócio para o algodão da agricultura familiar”, afirma.

Adriana Gregolin, coordenadora do Projeto +Algodão – FAO

Já segundo a representante da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) do Ministério das Relações Exteriores (MRE), Carolina Smid, a cooperação técnica deverá favorecer, sobretudo, a valorização do trabalho de um grupo de mulheres assistidas pelo Instituto Paraguayo de Artesanía. “A Diaconia faz um belo trabalho de fortalecimento das cooperativas de pequenos e pequenas produtoras de algodão, proporcionando melhoria na renda e nas condições de vida dessas famílias. Nossa expectativa é a de que a cooperativa de mulheres selecionada a integrar o futuro projeto +Algodão Paraguai, possa se apropriar da expertise que será compartilhada pela Diaconia para que, tal como as agricultoras e agricultores brasileiros, elas também possam usufruir dos benefícios do fortalecimento de sua organização”, explica.

Carolina Smid, representante da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) – Ministério das Relações Exteriores (MRE)

Além disso, de acordo com o oficial de programas do FIDA, Hardi Vieria, a cooperação estruturada poderá impulsionar uma rede de agricultoras e agricultores de diferentes países, inclusive futuramente da Ásia e Oeste da África, que vivenciam desafios semelhantes em relação à convivência com o clima semiárido, geração de renda e novas oportunidades para a agricultura familiar.

Oficial de programas do FIDA, Hardi Vieira

“A cooperação Sul-Sul e triangular no FIDA vem ganhando importância grande, principalmente para que as boas práticas e as experiências consolidadas no Brasil, possam ser disseminadas para outros países. E o tema do algodão agroecológico consorciado, com a experiência que foi consolidada por meio do Projeto Dom Hélder Câmara e agora com o Projeto AKSAAM, é um dos temas que o FIDA está buscando colocar na cooperação Sul-Sul. Então outros países, como o Paraguai e Argentina, que também possuem áreas semiáridas, podem se beneficiar dessas experiências e isso potencializa a colaboração que a Diaconia e o projeto AKSAAM estão disseminando na gestão do conhecimento”, explica.  

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). O Projeto conta com o apoio financeiro da Laudes Foundation, da Inter-American Foundation (IAF) e do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE. O Projeto ainda é parceiro com o Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/Governo do Paraguai/IBA. Para a execução do Projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGs locais com experiência em Agroecologia que são responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânico (OPACs) e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó da Paraíba. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e Chapada assumiram conjuntamente as ações do Projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.