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Da pluma ao fio: famílias agricultoras do Cariri paraibano avançam na cadeia de valor com a venda direta para mercado orgânico e comércio justo

Por Acsa Macena


Especialistas na área têxtil avaliam e comprovam alta qualidade do fio do algodão orgânico com certificação participativa do sertão paraibano. Mais de 14 toneladas de fios serão transformadas em cerca de 150.000 tênis da empresa francesa VERT Shoes

Fio do algodão com certificação orgânica participativa produzido por famílias agricultoras do Cariri paraibano

Da pluma ao fio do algodão de qualidade, o resultado é mais ganho para agricultores e agricultoras do Cariri paraibano. Isso porque 14,93 toneladas da pluma de algodão com certificação orgânica participativa foram transformadas em fio (12/1), o que agrega não somente renda, mas novas perspectivas de acesso ao mercado orgânico mundial e comércio justo para as 160 famílias agricultoras da Associação Agroecológica de Certificação Orgânica Participativa do Cariri Paraibano (ACEPAC/PB), apoiadas pelo Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, coordenado por Diaconia.

“É um momento histórico no semiárido brasileiro porque pela primeira vez uma organização de base da agricultura familiar consegue vender o fio orgânico diretamente para o mercado orgânico e o comércio justo. Esse avanço da cadeia de valor representa praticamente o dobro do valor que é pago pela pluma orgânica. Isso vai servir como referência para o semiárido, para o Brasil e para o mundo. Essa experiência pode impulsionar a entrada de mais recursos para a agricultura familiar e potencializar a economia circular no semiárido brasileiro”, explica Fábio Santiago, coordenador do Projeto pela Diaconia.

Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, em visita ao parque têxtil do Senai – PB

A inciativa se tornou possível através da parceria de Diaconia com o Instituto SENAI de Tecnologia Têxtil e Confecções, da Paraíba, que realiza todo o processo através da utilização dos modelos mais modernos de tecnologia do mundo para essa finalidade, entre elas máquinas alemãs, suíças e japonesas de última geração e alta performance para deixar a fibra do algodão ainda mais limpa.

“O algodão que estamos recebendo em pluma é de ótima qualidade, as nossas regulagens propiciaram a extração de resíduos na faixa de 5% a 6%, e conseguimos uma qualidade do fio e resistência muito boa, além da coloração do algodão que está ótima, muito clara”, explica Abmar Medeiros, gerente da planta têxtil do Senai Têxtil e Confecção da Paraíba.

Edenilso Stela (engenheiro têxtil da VERT Shoes), Jéssica Hahn (Analista de Suprimentos da VERT Shoes) e Abmar Medeiros (gerente da planta têxtil do SENAI) em visita à unidade têxtil paraibana

A importância da transformação da pluma em fio se dá porque esta é uma etapa essencial para o avanço da cadeia de valor do algodão para o mercado têxtil, a partir da confecção de tecidos que serão utilizados na finalização de roupas e calçados, por exemplo. Sendo assim, a venda de 14,93 toneladas de fio já está garantida para a empresa de calçados francesa VERT Shoes, que aposta em uma moda mais sustentável através de materiais agroecológicos para fabricação dos tênis vendidos mundialmente.

 De acordo com o Engenheiro Têxtil da VERT, Edenilso Stela, que é responsável pelo desenvolvimento de tecidos para os calçados, planejamento e controle de todos os produtos, processos e alterações técnicas inerentes aos tecidos utilizados, o algodão agroecológico das famílias agricultoras da ACEPAC – Sertão do Cariri/PB demonstra alta qualidade e resistência.

 “Pudemos constatar um algodão de excelente qualidade, evidenciando alto teor de limpeza, com geração de resíduo muito baixo quando comparado com a média do mercado, o que agrega a um fio de qualidade, limpo, sem imperfeições, de muita resistência e de muito alongamento. Isso gera inúmeros benefícios dentro da cadeia, não só para fiação, mas para produção de tecido, utilização da eficiência e para o processo de tingimento e finalmente a produção do calçado.  Então estamos muito satisfeitos com essa parceria, o algodão realmente é tratado com muito cuidado, e o SENAI está com excelentes equipamentos e nos dá confiança de projetarmos um crescimento de um processo que está se iniciando e irá render muitos frutos”, explica Edenilso.

Algodão orgânico do Cariri Paraibano em processo de fiação no SENAI

Dessa forma, o algodão agroecológico, produzido pelas famílias agricultoras do Cariri paraibano tem uma valorização especial pela empresa francesa, devido aos cuidados que são observados a partir do manejo do solo, colheita, beneficiamento, enfardamento, rastreabilidade, certificação, fiação e tecelagem. Entre eles pode-se destacar a ausência de agrotóxicos sintéticos, adubação química sintética, transgenia, fogo na preparação da terra, colheita à mão e separação da rama do caroço (descaroçamento) eficiente. Além disso, a produção de algodão nas unidades familiares é realizada em consórcios com culturas alimentares, onde o algodão deve ocupar no máximo 50% da área. Segundo a Analista de Suprimentos da VERT, Jéssica Hahn, o cumprimento de tais procedimentos é essencial para garantia da fabricação e consecutiva exportação para comercialização dos tênis.

Algodão orgânico do Cariri Paraibano em processo de fiação no SENAI

“Esse fio agora será levado para outra empresa que fará a transformação em tecido para ser usado em nossos tênis. Nós utilizamos o tecido do algodão em vários tênis da nossa marca e é algo que nos traz muito orgulho porque não é um algodão comum, mas agroecológico. Com essa quantidade de 14 toneladas, serão produzidos em torno de 150.000 pares de tênis que serão vendidos no mundo inteiro”, explica Jéssica.

Já para a agricultora e presidenta da ACEPAC/ PB, Amanda Procópio, a realização do processo de fiação significa uma enorme conquista para as agricultoras e agricultores, e tem superado as expectativas em relação ao potencial de alcance ao mercado orgânico mundial.  “É muito gratificante termos trazido a nossa pluma do algodão para o SENAI pra gente fazer a fiação, porque além de dar autonomia é mais um avanço na cadeia produtiva do algodão, além de trazer autonomia aos agricultores, a gente tem o retorno de recurso financeiro para mais renda para suas famílias”, afirma.

Coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, Fábio Santiago, e presidente da ACEPAC/PB, Amanda Procópio

Sendo assim, para que seja assegurada a qualidade do algodão agroecológico é necessário o acompanhamento técnico das atividades dos agricultores e agricultoras. Na Acepac/PB, esse trabalho é de responsabilidade da ONG Arribaçã, que também comemora os resultados obtidos. “Para a ARRIBAÇÃ, que atua nesse processo a partir da assessoria técnica, a comercialização em fio através dessa parceria existente entre a Diaconia, a ACEPAC e o SENAI – PB nas dinâmicas do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, é um ganho imenso pela agregação de valor à produção e a geração de renda para os agricultores e agricultoras. Esse é um sonho que tínhamos enquanto assessoria e valida o nosso trabalho diário de fazer os agricultores e agricultoras da ACEPAC acreditarem na agroecologia e no trabalho realizado diariamente”, afirma Izabel Cristina, presidenta da instituição parceira.

Izabel Cristina, presidente da ONG Arribaçã, e Almir Freitas, assessor técnico da ONG Arribaçã em visita técnica ao SENAI/PB

A demanda do algodão orgânico e as expectativas do mercado têxtil – Só para se ter uma ideia, anualmente, a VERT Shoes precisa de cerca de 300 toneladas de pluma de algodão agroecológico para a produção dos seus tênis. Apesar da fiação da maioria dos fornecedores acontecer por empresas do sul do país, o processo de fiação do algodão com certificação orgânica participativa das famílias agricultoras do Cariri paraibano acontece no próprio estado de produção, isso através do maquinário da unidade paraibana.

Produção de tênis da empresa francesa VERT Shoes

De maneira geral, na safra de 2021, o algodão brasileiro correspondeu à 30% do total utilizado pela VERT para a produção de calçados, sendo que 70% deste algodão necessário vem do Peru. Ainda assim, os representantes da VERT demonstraram um desejo de que não só a fiação, mas a etapa de tecelagem aconteça também na unidade paraibana. “Nós temos um algodão muito bom. Quem sabe a gente não pode fazer o tecido sair daqui”, destacou o Engenheiro Têxtil da VERT, Edenilso Stela.

Histórico da fiação do Projeto Algodão com o SENAI – Para que hoje pudessem se tornar em fios, anteriormente foi tomado um importante passo ainda no ano de 2019: a separação da rama do algodão do caroço, através da máquina descaroçadeira e prensa para a produção dos fardos de pluma. Em 2020, foi firmado um Termo de Cooperação Técnica assinado entre a Diaconia e o Instituto SENAI de Tecnologia Têxtil e Confecções, para realização da análise das fibras e a fiação de 265 kg de algodão do território do Sertão do Apodi (RN), que também foram comprados pela VERT.

 Já em novembro de 2021, foi realizado o planejamento para a fiação da pluma produzida pelas famílias agricultoras da ACEPAC, na sede da Diaconia, no Recife. E agora em 2022, as famílias agricultoras do Cariri paraibano colhem a realização de comercialização da fibra do algodão no mercado orgânico mundial justo.

Representantes de Diaconia, ONG Arribaçã, VERT Shoes, ACEPAC, ASAP e SENAI em visita ao Parque Têxtil da unidade paraibana

VÍDEO YOUTUBE – Para saber mais, acesse o vídeo completo no nosso canal do Youtube: https://youtu.be/TYkPyCsgn_4

SENAI – O Instituto SENAI de Tecnologia Têxtil e Confecções da Paraíba tem capacidade de atender a cadeia produtiva do segmento têxtil desde a produção do fio até a confecção do produto final. A unidade conta com máquinas de fiação completa, tecelagem, malharia, beneficiamento, estamparia digital e confecção. O quadro de profissionais inclui designers, técnicos têxteis, modelistas e costureiras que fazem parte de um processo produtivo completo. O SENAI está localizado no complexo industrial da Paraíba, às margens da BR 101, em João Pessoa.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). O Projeto conta com o apoio financeiro da Laudes Foundation, da Inter-American Foundation (IAF) e do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE. O Projeto ainda é parceiro com o Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/Governo do Paraguai/IBA. Para a execução do Projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGs locais com experiência em Agroecologia que serão responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânico (OPACs) e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó da Paraíba. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e Chapada assumiram conjuntamente as ações do Projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.