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Diante de crise mundial por fertilizantes, cultivo de plantas de adubação verde servirá de modelo para fertilização sustentável

Por Acsa Macena


Com dependência média de 85% de importações de fertilizantes químicos sintéticos, alternativa para a falta de insumos no Brasil pode ser encontrada no cultivo das plantas de adubação verde que garantem a capacidade produtiva do solo, além de contribuir para a redução de  emissão de gases de efeito estufa

Agricultor multiplicador Edjunho Tavares, secretário da Ecoararipe em seu campo de algodão consorciado com plantas adubadeiras (Santa Cruz – Sertão do Araripe-PE)

A demanda mundial por fertilizantes químicos sintéticos para produção de alimentos tem ocupado discussão significativa diante do conflito entre Rússia e Ucrânia. Só para se ter uma ideia, hoje o Brasil depende em média 85% da importação desses insumos, sendo mais de 20% oriundos da Rússia, cenário que reforça a importância do incentivo a modelos de adubação locais e sustentáveis. Além disso, dados recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) apontam que as importações de fertilizantes no país atingiram nível recorde no ano passado, chegando a 41,6 milhões de toneladas entre janeiro e dezembro de 2021.

Em contrapartida a esse cenário, um caminho para o enfretamento à crise dos fertilizantes está aqui mesmo no Brasil, onde as práticas de cultivo desenvolvidas por famílias agricultoras do Semiárido nordestino, apoiadas pelo Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, servirão de inspiração para um modelo sustentável e eficaz na produção do algodão com certificação orgânica participativa e culturas alimentares como o amendoim, gergelim, milho, feijão, girassol e outros.

Plantação consorciada do algodão com girassol e outras plantas de adubação verde em Parnamirim-PE, Assentamento Laranjeiras, Sertão do Araripe-PE

Isso porque a estratégia da adubação verde, que consiste no cultivo de diferentes plantas que irão reter nos tecidos vegetais bastante Nitrogênio (fixação de nitrogênio atmosférico nas raízes através da simbiose com as bactérias Rhizobium), Cálcio e Potássio, além de quantidades consideráveis de Fósforo e Magnésio, buscam garantir maior fertilidade, incrementar a biomassa microbiológica do solo e o crescimento e desenvolvimento das plantas. Entre as plantas de adubação verde, podemos destacar o feijão de porco, feijão guandu, feijão lab lab, mucuna preta, mucuna cinza, cunhã, amendoim, feijão macassar, girassol e crotalária juncea.

Cultivo de algodão consorciado com plantas de adubação verde em faixas alternadas  no município de Ipubi-PE, Sítio Cupim 1, Sertão do Araripe-PE

De acordo com o coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos/Diaconia, Fábio Santiago, a utilização das plantas de adubação verde garante a fertilização natural do solo, além de contribuir para o melhor desenvolvimento das plantas, inclusive, do algodão, devido ao incremento da capacidade produtiva do solo com aumento de microrganismos, elevação da capacidade de troca de cátions (nutrientes de maior demanda pelas plantas – nitrogênio – cálcio – potássio – magnésio) e maior retenção de água pela elevação da matéria orgânica.

“É possível verificar que o crescimento do pé de algodão se tornou completamente diferente. Atualmente temos plantas com 18 ramos produtivos ou mais de 100 maçãs, o que comprova que a técnica da adubação verde precisa ser mais experimentada porque é uma estratégia natural sustentável para agricultura familiar e para manter e elevar a fertilidade do solo, além de servir de referência para o mundo porque esse plantio faz com que a adubação seja natural através de plantas que reduzem consideravelmente a emissão de gases de efeito estufa. Ademais, o aumento da diversidade de cultivo vem incrementar a quantidade de flores que são fundamentais para elevar a presença de abelhas e inimigos naturais. A maior presença de abelhas contribui para elevar a polinização da flor do algodoeiro, resultando em maior produtividade e aumento do peso da semente”, explica.

Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão, e agricultor Francisco de Assis, demonstram planta de algodão com grande número de maçãs, no campo de multiplicação de sementes, Assentamento Laranjeiras, Parnamirim – PE, Sertão do Araripe – PE

Segundo Maria do Socorro, agricultora multiplicadora e presidenta da Associação de Agricultoras e Agricultores Agroecológicos do Araripe/PE, a chegada das plantas de adubação verde mudou a realidade do seu roçado. “Através do Projeto Algodão foi implantado o sistema de irrigação por gotejamento, e a partir daí começamos a cultivar plantas adubadeiras para recuperarmos o solo. Depois plantamos o algodão e as culturas do consórcio. Após isso, veio os resultados com o campo de multiplicação de sementes crioulas, que são distribuídas para os outros territórios, além de comercializarmos através da ECOARARIPE/PE. Hoje temos essa diversidade de plantas, graças ao Projeto Algodão que veio com essa inovação porque não conhecíamos esse trabalho”, explica.

Maria do Socorro, no campo de multiplicação de sementes crioulas, Assentamento Laranjeiras, Parnamirim-PE, Sertão do Araripe – PE

Já no Sertão do Pajeú – PE, o cultivo de algumas plantas de adubação verde foi iniciada nesse ano nas quatro Unidades de Aprendizagem e Pesquisa (UAPs) do território. O momento ainda é de expectativa para comprovação da eficácia. “Esperamos um aumento da melhoria e recuperação nos solos, primeiro pelo aumento da matéria orgânica para a biodiversidade do solo. Plantamos o feijão de porco e guandu que são plantas que conseguem fixar o Nitrogênio no solo, um nutriente fundamental para a produtividade do solo. Além disso, as raízes dessas plantas mais profundas contribuem para a descompactação do solo”, explica Jucier Jorge, técnico do Projeto Algodão/Diaconia no território do Sertão do Pajeú – PE.

Plantação de algodão consorciado no Sertão do Pajeú (PE)

Essa fase das primeiras experimentações das plantas de adubação verde tem trazido expectativas também para o agricultor multiplicador João Bosco, que reside na comunidade de Caiana, Itapetim – PE, Sertão do Pajeú-PE. “Já consigo ver a diferença na roça com a plantação que fiz das adubadeiras. Ano passado a minha roça estava bem fraca, mas esse ano plantei feijão de porco em faixas alternadas com girassol, milho, feijão, tudo em consórcio, e a roça está bem melhor do que no ano passado. Percebi que o milho e o gergelim estão bem mais corados e a terra está com uma qualidade muito melhor”, observa.

Agricultor Bosco mostra o feijão de porco, planta de adubação verde, em seu roçado no Sertão do Pajeú-PE

O momento inicial de experimentação também tem sido vivenciado no Sertão do Apodi (RN) pela agricultora multiplicadora Maria Cândida, que faz parte da Associação de Certificação Orgânica Participativa do Sertão do Apodi – ACOPASA/RN. “Acredito que vai ser muito proveitoso para meu solo. Estou trabalhando com feijão guandu, feijão de porco, amendoim, girassol e gergelim. Portanto, vou esperar o resultado no próximo ano. Mas é uma expectativa grande porque são plantas que não tínhamos o hábito de cultivar”.

Agricultora multiplicadora Maria Cândida, em plantação consorciada do algodão com feijão macassar no Sertão do Apodi (RN)

De acordo com a técnica da Diaconia no território do Sertão do Apodi, Hesteólivia Shyrlley, das oito UAPs existentes no território, a metade realizou o plantio das plantas de adubação verde, dentre elas o feijão de porco, feijão guandu, girassol e o amendoim. “A nossa perspectiva com essa experiência é que possamos melhorar o solo e a qualidade da produção dos roçados, enquanto as famílias agricultoras estão conhecendo outras culturas que não tinham o costume de plantar, na esperança de termos resultados que possivelmente irão se apresentar no próximo ano, considerando que é uma experiência nova”, explica.

Hesteólivia Shyrlley, técnica da Diaconia no território do Sertão do Apodi (RN)

Sendo assim, a partir da estratégia de implementação das plantas de adubação verde, a expectativa é que parte dessas sementes possam chegar também à comercialização, conforme acredita o técnico de Diaconia Paulo Nobre, que também assessora as famílias agricultoras participantes do Projeto no território do Apodi (RN). “As adubadeiras estão sendo trabalhadas tanto dentro dos consórcios do algodão, quanto numa área secundária próxima ao consórcio, onde está acontecendo uma rotação de culturas, tendo em vista que essas plantas adubadeiras tanto serão incorporadas ao solo, como também está sendo visada a comercialização de parte dessas sementes adubadeiras. A função principal é o cuidado com o solo, para que possa ser garantida uma produção diversificada, de qualidade e em quantidades maiores”, afirma.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). O Projeto conta com o apoio financeiro da Laudes Foundation, da Inter-American Foundation (IAF) e do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE. O Projeto ainda é parceiro com o Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/Governo do Paraguai/IBA. Para a execução do Projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGs locais com experiência em Agroecologia que são responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânico (OPACs) e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó da Paraíba. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e Chapada assumiram conjuntamente as ações do Projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.