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Elaboração de passo a passo para a produção do algodão em consórcios agroecológicos incentiva autonomia do conhecimento para famílias agricultoras

Por Acsa Macena


O conjunto de regras e boas práticas tem auxiliado as mais de 800 famílias agricultoras vinculadas ao Projeto na melhor convivência com o semiárido nordestino, assim como vem contribuindo para o controle da qualidade orgânica em unidades familiares produtivas

Agricultores e coordenador do Projeto em plantação de algodão consorciado no sertão do Pajeú/PE

Preparar a terra, plantar, colher, descaroçar e comercializar. O cotidiano dos agricultores e agricultoras do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, coordenado por Diaconia, é repleto de práticas, manejos e convicções que fazem parte da compreensão que têm em relação à agricultura familiar. Dessa forma, na intenção de orientar não só sobre as boas práticas de manejo e tratos culturais, como também a centralidade do cumprimento de requisitos necessários para obtenção da certificação orgânica participativa dos produtos das unidades familiares produtivas, o Projeto desenvolveu um protocolo que traz instruções desde o momento da preparação do solo até às medidas sanitárias após a colheita.

“Esse protocolo é fundamental para a gestão do conhecimento. Ou seja, agora as famílias têm um passo a passo para utilizar de forma preventiva e que possa dialogar com melhores rendimentos tanto do algodão quanto de outras culturas, isso em concordância com a questão sanitária de convivência”, afirma Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos pela Diaconia.

Fábio Santiago, coordenador do Projeto, em campo irrigado no sertão do Araripe/PE

Dessa forma, as instruções presentes no protocolo têm alcançado os sete territórios distribuídos em seis estados de atuação do Projeto no semiárido nordestino, entre Associações Rurais de Certificação Orgânica Participativa e Associações em fase de transição de credenciamento junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Exemplo disso é a Associação de Certificação Orgânica Participativa Flor de Caraibeira (AL), no Alto Sertão Alagoano, que teve a valorização da produção de algodão em fase de transição orgânica a partir da chegada do protocolo.

“Nesses quatro anos de projeto a chegada do protocolo tem demonstrado na prática que ele é a única maneira possível de se produzir algodão de forma agroecológica, orgânica e sustentável, além das questões de preservação ambiental. Há muitos anos não se produzia algodão aqui em Alagoas por conta do descontrole do bicudo e porque era produzido com grandes áreas de monocultivo, causando desequilíbrio. Com a chegada do protocolo, que tem uma proposta de produzir algodão com bases agroecológicas, foi um impacto positivo gigantesco diante do valor agregado ao algodão em transição”, explica Ana Cristina Accioly, assessora técnica do Instituto Palmas, parceiro local do projeto.

Na foto à esquerda, Ana Cristina Accioly (sem óculos), assessora técnica do Instituto Palmas, juntamente com as agricultoras multiplicadoras com Bianca Reis e Maria Luzineide da Flor de Caraibeira – AL, e na foto à direita, planta do algodão à luz do protocolo do algodão consorciado

Além disso, os momentos de partilhas e experimentações sobre as regras do protocolo também estão presentes no cotidiano das famílias agricultoras da Associação de Certificação Orgânica Participativa do Sertão do Apodi (ACOPASA/RN). Segundo a agricultora multiplicadora Maria Cândida, a apropriação dos conhecimentos sobre o conjunto de orientações tem mostrado resultados para ela e as demais famílias do território.

Agricultora Maria Cândida (no centro) em plantação de algodão agroecológico no Sertão do Apodi-RN

“Eu tenho acompanhado todo o passo a passo. A questão do espaçamento, plantar nas primeiras chuvas, fazer o raleamento, poda, tudo isso foi novo para mim e esse protocolo nos ensina bastante. Eu fiz o experimento do raleamento utilizando uma planta por cova e vi que realmente dá muito mais rendimento no capulho. Então eu tento passar esses conhecimentos para os demais agricultores e agricultoras e com o protocolo a gente tem mais facilidade de estar trabalhando. Estou satisfeita e para nossa família foi um aprendizado”, comemora.

Agricultora multiplicadora (Joana Dark) segue espaçamento  da plantação consorciada entre algodão e milho no Sertão do Pajeú – PE

O Projeto Algodão conta com apoio financeiro do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) – Organização das Nações Unidas (ONU), através do AKASAAM/IPPDS/UFV/FUNARBE que tem como um dos pilares o incentivo da gestão do conhecimento na agricultura familiar. Segundo o oficial de programas do FIDA no Brasil, Hardi Vieira, o alcance do protocolo poderá ser sentido para além do semiárido nordestino.

“O protocolo não só estabelece, sistematiza e documenta as boas práticas para produção do algodão agroecológico, como também se torna alcançável para agricultores e agricultoras. Além disso, tem outro componente que não é só da gestão do conhecimento, mas também a cooperação Sul-Sul e triangular porque esse protocolo de boas práticas poderá ser traduzido para outras línguas e outros países poderão adotá-lo, como é o caso do Paraguai e outros países no oeste da África. Então, para nós essa aliança com Diaconia passa por outras fronteiras que vão além do semiárido nordestino”, considera.

Agricultora, agricultor, assessor técnico (Jucier Jorge – Diaconia) e coordenação em plantação de algodão consorciado no sertão do Pajeú (PE)

Passo a passo do protocolo para garantia da qualidade orgânica – Dentre as diversas orientações presentes no protocolo, os agricultores e agricultoras precisam estar atentos e atentas às seguintes características: qualidade do solo, que deve ser franco argiloso (quantidade razoável de argila) para maior disponibilidade de nutrientes para as plantas ; importância do uso de microtratores para o preparo mínimo do solo e as limpas, evitando a inversão da camada do solo; plantação nas primeiras chuvas; plantio em curva de nível e espaçamento mais largos a partir da fertilidade do solo, proporcionando maior entrada de luz solar, condição desfavorável de atuação do bicudo do algodoeiro e a lagarta rosada ; conhecimentos sobre a prevenção e controle de insetos/pragas; cuidados com a limpeza do algodão na colheita, armazenamento e descaroçamento; rastreabilidade dos fardos do algodão  (peso, nome do agricultor ou agricultora, safra, variedade e local de procedência; e por fim, a centralidade do vazio sanitário, procedimento que permite ausência de flores de algodão durante a estação seca.

Agricultor Sr. Chico utiliza microtrator no sertão do Araripe/PE para otimizar resultados esperados pelo protocolo

O protocolo também orienta que o algodão deve proceder de consórcios agroecológicos e ocupar no máximo 50% da área de plantio. Já a outra metade deve ser de no mínimo quatro culturas diferentes (milho, amendoim, feijão, gergelim, girassol, entre outras) em conjunto de faixas alternadas. Além disso, as sementes usadas na unidade de produção devem estar livres de transgênicos e tratamento químico para garantia da qualidade dos alimentos para os consumidores e consumidoras.

Protocolo do algodão consorciado e geração de renda – Para o coordenador do AKSAAM, professor Marcelo Braga, o cumprimento do protocolo é uma condição essencial para se obter a certificação do algodão agroecológico e o acesso à comercialização justa dos produtos. “O protocolo de boas práticas para o algodão é um elemento fundamental na busca de uma produção agrícola sustentável. Isso permite a certificação do produto. Com isso, os agricultores e agricultoras conseguem melhor remuneração e acesso a mercados, pela diferenciação do produto, que lhes permitem a autonomia financeira”, explica.

Agricultor (Sr. Bartolomeu) e agricultora multiplicadora (Joana Dark) em plantação consorciada no Assentamento Jacu – Sertão do Pajeú – PE

Dessa forma, a partir do suporte oferecido pelo Projeto Algodão em trabalho conjunto com instituições parceiras, a ideia é que os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidades Orgânica (OPACs), formados por mais de 800 famílias vinculadas ao projeto, tenham suas atividades fortalecidas e impulsionadas para o acesso a mercados.

Segundo o coordenador do Projeto, “o protocolo potencializa a produção e ajuda a dialogar com novos mercados com a certificação orgânica participativa, o que é fundamental para manter as famílias existentes e novas famílias que vão se inserir no projeto ao longo do processo. Esse é um modelo inclusivo que dialoga com o tecido social forte dos OPACs, com a redução de gases de efeito estufa, contribuindo para o meio ambiente e geração de renda pela agricultura familiar no semiárido brasileiro”, afirma Santiago.

Fábio Santiago, agricultora multiplicadora (Joana Dark) e agricultor (Sr. Bartolomeu) em plantação de algodão consorciada no Sertão do Pajeú – PE

Estratégias de convivência com o semiárido nordestino – A elaboração do conjunto de instruções para a produção do algodão agroecológico é fruto de pesquisas e diálogo constante com agricultores, agricultoras, técnicos e técnicas que integram o Projeto. Diante disso, a expectativa é que também seja garantida uma melhor convivência das famílias agricultoras com o semiárido do Nordeste.

“Apresentar o protocolo com o passo a passo para a produção do algodão e de mais culturas alimentares consorciadas é apresentar a possibilidade de facilitar o processo de autonomia envolvendo as famílias agricultoras, assim como mostrar que é possível para conviver com o semiárido e ter uma vida digna no campo”, explica Waneska Bonfim, coordenadora político-pedagógica de Diaconia.

Visita técnica para acompanhamento da qualidade da plantação de algodão consorciada

Tal posição também é compartilhada pelo oficial de programas do FIDA, Hardi Vieira, que entende iniciativa de criação do protocolo como fundamental para melhor convivência com o semiárido e consecutiva geração de renda. “Essa é uma iniciativa que para o FIDA é fundamental porque a produção agroecológica, principalmente voltada para a agricultura familiar, não só garante a questão do manejo, da convivência com o Semiárido, mas também renda e uma maneira digna para os agricultores e agricultoras possam viver e comercializar melhor os seus produtos. O trabalho que a Diaconia vem fazendo tem sido fundamental para tornar esse investimento rentável e viável para os agricultores e agricultoras possam alcançar mercados”, afirma. 

Vídeo do protocolo – O projeto elaborou um vídeo didático que apresenta o passo a passo das diversas etapas para o algodão consorciado com culturas alimentares e forrageiras. Para conhecer melhor, acesse o link no nosso canal do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=QA3dQEFOEIU&t=861s.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). O Projeto conta com o apoio financeiro da Laudes Foundation, da Inter-American Foundation (IAF) e do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE. O Projeto ainda é parceiro com o Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/Governo do Paraguai/IBA. Para a execução do Projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGs locais com experiência em Agroecologia que serão responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânico (OPACs) e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó da Paraíba. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e Chapada assumiram conjuntamente as ações do Projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.