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Encontro regional de famílias agricultoras fortalece discussão sobre a necessidade da atuação em rede para a produção do algodão em consórcios agroecológicos no Nordeste


Por Acsa Macena

O evento foi organizado pela marca franco-brasileira Veja/Vert e aconteceu entre os dias 30/11 e 02/12 em Martins-RN

Participantes do encontro em Martins-RN. Foto: Alisson Chaves e Vanessa Chaves

Famílias agricultoras dos 7 OPACs/SPGs apoiados pelo Projeto Algodão participaram do encontro regional organizado pela marca franco-brasileira VERT/Veja com agricultores e agricultoras de outras instituições públicas e não-governamentais que trabalham com o algodão agroecológico no Nordeste. A programação envolveu seminários, oficinas e visitas de campo para imersão e tomadas de reflexões sobre a produção do algodão agroecológico. 

“O principal objetivo para VERT, a partir do departamento Zelar, foi juntar representantes de agricultores e agricultoras de todos os territórios onde compramos algodão no Nordeste e no estado de Pará, para facilitar trocas de experiências e fortalecer os OPACs, valorizando o trabalho das famílias que trabalham com o algodão. Percebemos que esse encontro possibilitou muitos intercâmbios, além de gerar o sentimento de pertença e orgulho de se encontrar todo mundo junto. A atuação em rede vai fortalecer as organizações de base e a autonomia das famílias porque elas vão melhorando na gestão e comercialização. Atuar em rede permite gerar essa dinâmica coletiva”, afirma Violette Combe, coordenadora dos projetos ZELAR da VERT/Veja.

Violette Combe, coordenadora dos projetos ZELAR da VERT/Veja. Foto: Alisson Chaves e Vanessa Chaves

Segundo Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão/Diaconia, a ocasião foi mais um momento importante na trajetória do algodão no semiárido do Nordeste do Brasil, pois conseguiu ampliar a participação de mais entidades que estão trabalhando com o algodão agroecológico, protagonizando a “linha de frente” dos agricultoras e agricultores no entendimento da trajetória de cada organização.

“Os agricultores e agricultores mostraram os avanços, mas destacaram muito bem os desafios para a sustentabilidade das organizações de base da agricultura familiar. Alguns desafios apontados perpassam pela necessidade de avançar na autonomia financeira e gerencial; o envolvimento da juventude rural para auxiliar os processos organizativos da documentação da certificação orgânica, administrativos, entre outros; estruturar outras cadeias produtivas para fazer jus todo o esforço do controle da qualidade orgânica em unidades familiares produtivas, de modo a avançar na geração de renda e segurança alimentar; e construir uma narrativa de comunicação que conte a história que carrega cada produto agroecológico com ou sem certificação orgânica para a sociedade, que vai mais além com a justiça de gênero, respeito ao próximo e aos direitos humanos, entre outros valores. O encontro mostrou que as diversas organizações de base da agricultura familiar podem avançar cada vez mais em ações em rede a partir de uma materialidade que una esse movimento. Isso irá fortalecer o avanço da agricultura familiar em acesso a mercados. É um recomeço de encontros regionais ampliados em prol de um coletivo social que possa ir construindo caminhos de ações em rede.  Atualmente a sociedade cada vez mais quer saber a história dos alimentos”, afirma.

Fábio Santiago e Valdenira Rodrigues, engenheira agrônoma da VERT/Veja. Foto: Alisson Chaves e Vanessa Chaves

Para além do algodão – Já que o processo da certificação do algodão exige grande esforço coletivo é oportuno investir na comercialização das demais produções dos roçados agroecológicos, que também estão inseridas na certificação orgânica participava, conforme explica Laércio Meirelles, agroecólogo, escritor, presidente da Rede Ecovida-RS, o primeiro OPAC a receber credenciamento junto ao governo federal para comercialização com o selo brasileiro orgânico.

Laércio Meirelles, agroecólogo, escritor, presidente do OPAC Rede Ecovida e coordenador do Centro Ecológico/RS. Foto: Alisson Chaves e Vanessa Chaves

“Nós estamos falando em aumentar a renda das famílias agricultoras com todo esse trabalho que vem sendo desenvolvido. Nesse sentido é fundamental diversificar os produtos e canais de comercialização. A ideia dos consórcios agroecológicos é exatamente cultivar também outras plantas como feijão, milho, gergelim. Então esses produtos precisam ter mercados que reconheçam a qualidade orgânica e que possam remunerar melhor as famílias”, afirma Laércio.

Tal colocação de Meirelles se alinha à compreensão da agricultora multiplicadora Maria Dilvânia, ligada à Associação de Certificação Orgânica Participativa do Sertão do Apodi – ACOPASA/RN. “É gratificante produzir um alimento orgânico que eu sei que fui eu que plantei e colhi. Do jeito que quero que minha família seja alimentada, quero isso para toda população. Nós da ACOPASA podemos ir bem mais além, pois as outras culturas são tão importantes quanto o algodão”.

Segundo o agricultor multiplicador e tesoureiro da Associação Agroecológica do Pajeú-PE, Claudevan José, o encontro abriu a possibilidade de expandir o conhecimento para outros OPACs/SPGs sobre a produção do tahine, pasta de amendoim, gergelim granulado, óleo de gergelim, amendoim cru e torrado e outras produções para além do algodão. “Foi um momento de troca de experiências entre diferentes OPACs, assim como de trocas sobre conquistas e desafios. Aproveitamos também para apresentar alguns produtos da agricultura familiar, principalmente os produtos que em breve iremos produzir e comercializar a partir da nossa Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) do Sertão do Pajeú-PE”.

Representantes da ASAP-PE e da equipe de Diaconia no encontro regional das famílias agricultoras em Martins-RN

Valores da certificação orgânica participativa – Segundo o especialista, a produção do algodão em consórcios agroecológicos envolve valores concretos que precisam ser visibilizados. “Não é só produzir sem veneno, mas considerar as circunstâncias ao nosso redor. Estamos falando em uma produção que não se contenta apenas em cumprir estritamente as normas orgânicas. Preocupa-se em um sentido mais amplo com o cuidado, com a vida em todas as suas manifestações. Esse cuidado é que nos irá diferenciar em um mercado cada vez mais competitivo, onde mesmo grandes empresas se aproximam da produção orgânica. Importante dizer, esse cuidado que menciono deve ser de fato exercido. Tem a ver em  preservar  solos e água, mas também com não aceitar o racismo, a desigualdade de gênero e a violência doméstica, apenas para citar alguns exemplos”, explica.

Unidade de descaroçamento do algodão em Umarizal-RN. Foto: Alisson Chaves e Vanessa Chaves

Tal colocação se alinha ao entendimento da agricultora e presidente da ECOARARIPE/PE, Adeilma Silva, que acredita na produção orgânica como uma grande aliada do controle social e ambiental. “Os produtos orgânicos têm um valor diferenciado. Desde a seleção das sementes e do plantio que são feitos por famílias, percebemos a valorização dos jovens e a garantia de mais renda para as famílias, além da autonomia das mulheres que realizam boa parte das atividades da certificação orgânica participativa. A produção orgânica tem a preocupação de cuidar do meio ambiente, isso é garantir que pessoas e natureza façam parte do mesmo espaço respeitando uns aos outros”, diz.

Produtos dos consórcios agroecológicos produzidos pela ECOARARIPE-PE

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). O Projeto conta com o apoio financeiro da Laudes Foundation, da Inter-American Foundation (IAF) e do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE. O Projeto ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, e com o Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/Governo do Paraguai/IBA. Para a execução do Projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGs locais com experiência em Agroecologia que são responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânico (OPACs) e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó da Paraíba. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e CHAPADA assumiram conjuntamente as ações do Projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.