Voltar para   página anterior

Famílias agricultoras da Serra da Capivara (PI) celebram a eficiência do protocolo de boas práticas do algodão consorciado

Por Acsa Macena


Na prática, a testagem do protocolo tem contribuído para um modelo de desenvolvimento sustentável, a partir do controle de pragas, geração de renda para a agricultura familiar e melhor convivência com o Semiárido nordestino

Famílias agricultoras, presidente do Instituto Luss, representante da Veja/Vert e coordenação do Projeto (Diaconia) em plantação de algodão consorciado no Assentamento Malhada Inca, Canto do Buriti (PI)

Entre o conhecer e testar, as famílias agricultoras vinculadas à Associação dos Produtores Agroecológicos do Semiárido Piauiense (APASPI) já conseguem comprovar os resultados do cumprimento do passo a passo para o cultivo do algodão em consórcios agroecológicos com certificação orgânica participativa. Isso porque o protocolo desenvolvido pelo Projeto Algodão, coordenado pela Diaconia, traz instruções cruciais que buscam garantir o controle da qualidade orgânica em Unidades Familiares Produtivas (UFPs).

“Esse plantio da gente é muito importante. Ele traz muitos benefícios e alegria para a gente. Quando trabalhamos aqui ficamos muito animados e animadas”, conta a agricultora Maria de Jesus Borges. Já para o agricultor João Batista de Sousa, o modelo de plantio consorciado servirá de exemplo para outras famílias agricultoras: “Para nós é muito diferente do convencional que a gente vinha plantando. Nós não tínhamos essa habilidade para plantar algodão, mas com essa experiência estamos gostando demais e o resultado é muito importante. Acredito que o assentamento de Malhada da Inca (PI) será referência para outros lugares”, afirma.

Plantação de algodão consorciado na Unidade de Aprendizagem e Pesquisa Participativa (UAP) – Comunidade Quilombola – Lagoa dos Prazeres – São Raimundo Nonato /PI

Segundo o coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos/Diaconia, Fábio Santiago, esse modelo é capaz de fortalecer a agricultura familiar na geração de renda e acesso a mercados. “É um momento muito importante porque serve de referência para as famílias agricultoras nos assentamentos e comunidades, assim como outras que possam vir e verificar qual é o modelo do algodão consorciado no Semiárido brasileiro. O algodão é a “força motriz” que pode impulsionar o acesso de outras culturas aos mercados, possibilitando o incremento da geração de renda que passem pela agricultura familiar com a certificação orgânica participativa”, explica.

Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão (Diaconia), em consórcio agroecológico no Assentamento Malhada Inca, Canto do Buriti (PI)

Sobre os resultados do protocolo – Ainda de acordo com a coordenação do Projeto, o modelo do protocolo aplicado nos consórcios agroecológicos com algodão é algo inovador e vem sendo experimentado nas UAPs, onde é possível verificar o aumento da diversidade de cultivo, com maior presença de flores; plantio em nível, na implantação de niveladas básicas com feijão de porco, feijão guandu e girassol, que servem de adubação verde; plantio nas primeiras chuvas; espaçamentos mais largos, proporcionando maior entrada de luz solar na planta; adubação orgânica de fundação e aplicação de biofertilizante parcelado; vazio sanitário, entre outras. O vídeo completo com o passo a passo do protocolo está disponível no canal do Projeto no Youtube.

Protocolo de regras e boas práticas do algodão em consórcios agroecológicos

“Essas são algumas de boas práticas que podem gerar mais estabilidade aos consórcios agroecológicos e, ao mesmo tempo, a oportunidade de novas linhas de produção no acesso a mercados com o selo brasileiro orgânico. Os resultados já vêm mostrando que a produção de maçãs de algodão por planta aumenta quando diminui o número de plantas por metro quadrado, ou seja, uma planta por cova vem aumentando a produção de maçãs da planta. Por outro lado, vem gerando possibilidade de conviver com ausência ou baixas taxas de infestação do bicudo do algodoeiro e lagarta rosada nos consórcios agroecológicos com algodão”, comenta Santiago.

Já segundo o técnico da Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato – PI e sócio fundador da APASPI, Gean Magalhães Bastos, é gratificante acompanhar o desenvolvimento do modelo do policultivo junto às agricultoras e agricultores. “Estamos agora colhendo o resultado dessa experiência e mostrando o quanto esse modelo do protocolo com a diversidade de culturas pode proporcionar às famílias, tanto na questão de reduzir riscos de perda de safra, como também na melhoria da renda porque você tem uma diversidade de produtos que quando você fecha a conta tem uma produção muito maior do quando você só tem uma cultura. Esse desenho está claro e é o desenho que traz mais produtividade para famílias, mais renda e melhoria da qualidade alimentar nutricional pela variedade de produtos”, afirma.

Gean Magalhães Bastos em plantação de algodão consorciado no Assentamento Malhada Inca, município Canto do Buriti (PI)

Já de acordo com o agricultor multiplicador e presidente da APASPI/PI, Jonilson Pereira, o modelo de plantio de apenas uma cultura não atende mais às necessidades e resultados esperados pelas famílias agricultoras. “Esse novo modelo simboliza a agricultura familiar, com a saída do modelo convencional de plantar só uma cultura em uma área, o que não traz o resultado que a gente espera. Mas quando você planta culturas diferenciadas como está acontecendo aqui, no final a gente vai fazer o cálculo do algodão, gergelim, milho, amendoim, feijão de porco, entre outras, a gente tem o dobro em comparação do plantio só do algodão, e isso gera um modelo de plantio na nossa comunidade e em outras”, explica.

Jonilson Pereira em plantação de algodão consorciado no Assentamento Malhada Inca, Canto do Buriti (PI)

A importância da presença dos inimigos naturais e plantas de adubação verde – De acordo com a coordenação do Projeto Algodão, que incentiva a base científica, o policultivo do algodão com faixas alternadas com outras culturas favorece a presença de inimigos naturais. Ademais, nas niveladas básicas nos consórcios agroecológicos há presença de plantas de adubação verde (feijão de porco, feijão guandu, entre outras) que têm a natureza de realizar a fixação de nitrogênio atmosférico a partir da presença de bactérias nas raízes.

“Isso faz com que essas plantas possam acumular quantidades significativas de nitrogênio nos tecidos vegetais, além de elevados teores de potássio e cálcio e consideráveis de fósforo e magnésio. Além disso, a diversidade de culturas favorece o surgimento de inimigos naturais como a joaninha, maribondos, sirfídeos, entre outros. Temos também o girassol, uma planta que atrai bastante inimigos naturais e polinizadores que serve para a ração de animais e produção de óleo. Há ainda o milho, o amendoim e o feijão. Então a diversidade do cultivo faz parte do conceito desse Projeto, e podemos observar aqui que não existe praticamente nada de insetos que estejam afetando o desenvolvimento das plantas”, explica Santiago.

Plantação de algodão consorciado no Assentamento Malhada Inca, Canto do Buriti (PI)

Tal observação também é compartilhada pelo engenheiro agrônomo da empresa de calçados francesa VERT Shoes, Alexandre, que verificou o modelo desenvolvido pelo Projeto. “É gratificante ver todo esse trabalho de organização, multiplicação e de entendimento que agricultores e agricultoras vêm adquirindo nesse processo de trabalhar com várias culturas, entre elas as leguminosas, enriquecendo mais ainda o solo dessas famílias, e garantindo uma diversidade de outras culturas para serem colocadas no mercado e gerar renda. A gente percebe a harmonia com a natureza e a presença de inimigos naturais”, considera.  

 Alexandre, Engenheiro agrônomo da empresa de calçados francesa VERT Shoes

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). O Projeto conta com o apoio financeiro da Laudes Foundation, da Inter-American Foundation (IAF) e do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE. O Projeto ainda é parceiro com o Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/Governo do Paraguai/IBA. Para a execução do Projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGs locais com experiência em Agroecologia que serão responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânico (OPACs) e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó da Paraíba. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e Chapada assumiram conjuntamente as ações do Projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.