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Intercâmbio de beneficiamento do algodão reúne Alagoas, Paraíba e Sergipe no Alto Sertão Alagoano

Por Tadzio Estevam


Resultado do trabalho coletivo rendeu um total de 1,13 toneladas de pluma para Alagoas e 2,3 toneladas de pluma para Sergipe

Processo da retirada do algodão, ainda em rama, dos sacos e levado para a máquina desaroçadeira.

Toda a produção em pluma do algodão agroecológico dos territórios Alto Sertão Alagoano (AL) e Alto Sertão Sergipano (SE) já está pronta para viajar e se tornar um dos itens mais utilizados pelas pessoas no mundo inteiro: o tênis, fabricado pela Vert Shoes – empresa francesa e compradora de toda a produção nos sete territórios do projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos. Desde a última segunda-feira (03), agricultoras e agricultores dos dois estados estão reunidas e reunidos no município de Água Branca (AL) realizando o descaroçamento do algodão – processo que separa a pluma do caroço e das eventuais impurezas. O resultado do trabalho coletivo rendeu um total de 1,13 toneladas de pluma para Alagoas e 2,3 toneladas de pluma para Sergipe. Além disso, foram contabilizados mais de cinco mil quilos de caroço que servirão de sementes para a safra deste ano e para alimentação animal. O descaroçamento foi concluído neste domingo (09).

Confira o vídeo da oficina clicando aqui

O intercâmbio contou com a participação do grupo da Associação Agroecológica de Certificação Participativa do Cariri Paraibano (ACEPAC) que repassou informações importantes, principalmente, sobre o processo de rastreabilidade da pluma, uma das etapas mais específicas que assegura o envio e recebimento do produto à empresa compradora. “O processo da rastreabilidade é um dos mais importantes e onde gera mais problemas, pois é preciso anotar informações como peso, de quem é, de onde vem e o código do fardo. A empresa compradora exige isso das famílias”, explicou a atual presidente da ACEPAC, Amanda Procópio, que já soma experiência na área há mais de quatro anos.

Agricultora Rosana Pereira anotando todos os dados na planilha da rastreabilidade do algodão.

Para a agricultora Rosana Pereira, do município de Olho D’água do Casado, Alagoas, a rastreabilidade trouxe um novo aprendizado. “Nunca havia feito algo do tipo. Aprendi tudo aqui. No final deste ano não será mais preciso fazer oficina. Identificar a quantidade de quilos de cada fardo, anotar todas as informações dos agricultores e agricultoras, a variedade do algodão, se está em transição ou não, fornecedor e comprador. Isso nos deixa muito felizes porque estamos nos aperfeiçoando para o nosso próprio bem com o nosso próprio produto”. O agricultor Humberto Vieira, do assentamento Cachoeirinha, município de Gararu, em Sergipe, colheu na primeira safra dele 595 quilos de algodão em rama (pluma mais caroço). Após o descaroçamento, ele conseguiu produzir três fardos de pluma com quase 100 quilos cada, um lucro de aproximadamente três mil reais. “Assumimos o compromisso com o projeto lá atrás, há um ano e meio, e hoje estamos dando a resposta para aqueles que não acreditaram. Estou muito satisfeito com o resultado da minha colheita e mais feliz ainda em poder vir aqui beneficiar meu próprio algodão”.

Ao final do terceiro dia de atividades e já sem os equipamentos de segurança utilizados dentro da miniusina, grupo se reúne para uma foto unindo os dois territórios.

“Este é um momento histórico para o projeto onde estamos colocando as famílias na linha de frente e fortalecendo as nossas associações. A ACEPAC da Paraíba é um exemplo disso. A ideia foi promover uma troca de conhecimentos horizontal para empoderar cada vez mais essas famílias. Aqui aconteceu uma formação entre agricultores e agricultoras, criando espaço para que eles e elas dominem as atividades que serão corriqueiras daqui para frente na vida deles e delas”, comemorou o coordenador do projeto pela Diaconia, Fábio Santiago. A oficina contou com a participação da Embrapa Algodão, parceira do projeto, que na ocasião, foi representada pelo técnico de Inovação, Dalfran Gonçalves. “Nós da Embrapa estamos muito felizes em presenciar esse fato inédito. Reunir pessoas de três regiões diferentes, trocando experiências, com toda autonomia e saberes recebidos nas formações e saberes populares, não tem preço. É uma experiência magnífica”. De acordo com o professor Felipe Jalfim, coordenador do projeto pela Universidade Federal de Sergipe (UFS – Campus do Sertão), instituição parceira do projeto, “mais do que um intercâmbio, esse momento do beneficiamento do algodão significa o fechamento do primeiro ciclo do projeto. Proporciona o domínio e autonomia na separação da pluma do caroço do algodão, enfardamento da pluma e rastreamento, bem como o retorno da semente para os agricultores e as agricultoras iniciarem o novo plantio e suplementar a alimentação de seus rebanhos”. 

Ana Cristina Accioly e Bayne Ribeiro, técnicas do projeto algodão nos estados de Alagoas (Instituto Palmas) e Sergipe (Centro Dom José Brandão de Castro) , respectivamente, concluíram as atividades ressaltando a importância do intercâmbio como uma ferramenta de empoderamento para as famílias agricultoras. “Esse encontro proporcionou a todas e todos aqui presentes um aprendizado imensurável. Fico muito agradecida ao pessoal da ACEPAC que veio da Paraíba até Alagoas nos encher de conhecimentos e esperanças para que futuramente nós consigamos caminhar com nossos próprios pés”, disse Ana. “A experiência está sendo única. Todas essas famílias sergipanas que plantaram e trouxeram seu algodão para cá estão finalizando uma cadeia produtiva com todas as etapas concluídas como organização de pontos de coleta, transporte, até esse beneficiamento. Agora é cumprir a última etapa que é o envio para a empresa compradora”.

Ao final das atividades, toda a produção, devidamente rastreada, seguirá para a empresa francesa Vert Shoes, responsável pela compra de todo algodão do projeto nos sete territórios de atuação.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Embrapa Algodão e a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória). O projeto conta com o apoio técnico e financeiro do Instituto C&A.

Para a execução do projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONG’s locais com experiência em Agroecologia que serão responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os OPAC’s e a produção agroecológica.

No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONG’s Caatinga e Chapada assumiram conjuntamente as ações do projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro, respectivamente.

No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do projeto.