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Parceria com o SENAI/PB proporcionará boas práticas no processamento de alimentos dos consórcios agroecológicos no Sertão do Cariri-PB

Por Acsa Macena


Após a conquista da fiação da pluma de algodão com certificação orgânica participativa, famílias agricultoras do Cariri paraibano serão treinadas pelo Senai/PB para processamento de nove linhas de alimentos agroecológicos produzidos nos consórcios

Alguns dos alimentos consorciados com o algodão com certificação orgânica participativa

O desejo de avançar na comercialização dos alimentos oriundos dos consórcios agroecológicos com o algodão está cada vez mais próximo de se tornar realidade para as 160 famílias agricultoras da Associação Agroecológica de Certificação Orgânica Participativa do Cariri Paraibano (ACEPAC/PB), apoiadas pelo Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, coordenado pela Diaconia e em parceria com a ONG ARRIBAÇÃ.

Isso porque a Diaconia firmou parceria com o SENAI/Paraíba para implantação de boas práticas na fabricação de nove diferentes produtos com certificação orgânica participativa. São eles: óleo de gergelim, gergelim granulado, tahine, amendoim cru e torrado, pasta de amendoim, girassol, grão de milho e feijão ensacado.

Sendo assim, a cooperação técnica de boas práticas será realizada na Unidade de Beneficiamento de Alimento (UBA) da ACEPAC-Sertão do Cariri-PB, no assentamento da Vila Lafayette, município de Monteiro – PB. Para isso, o trabalho vai abordar procedimentos que vão desde os cuidados com a higiene pessoal, do ambiente, instalações, equipamentos e utensílios até a elaboração de um manual de boas práticas.  

Unidade de Beneficiamento de Alimento (UBA) da ACEPAC-Sertão do Cariri-PB, Assentamento da Vila Lafayette

Segundo o engenheiro Agrônomo e Consultor do SENAI/João Pessoa-PB, João Roberto, a expectativa é oferecer uma melhor qualidade final dos produtos, de modo que haja uma valorização no preço para a comercialização. “Vamos implantar o Programa Alimento Seguro (PAS), que tem abrangência nacional e busca qualificar as unidades de beneficiamento de alimentos e bebidas em geral. Nosso objetivo é dar qualidade e credibilidade aos produtos que serão aqui beneficiados e, consequentemente, um melhor retorno no preço dos produtos para as agricultoras e agricultores”, afirma.

Já de acordo com a Supervisora do SENAI/PB, Mayne Ramos, “o processo de certificação no PAS é um Selo exclusivo do SENAI, que possui abrangência nacional de adequação de estabelecimentos nas normas da Vigilância Sanitária e Ministério da Agricultura. Isso é de importância fundamental para a qualidade e segurança dos alimentos. Ao fazermos esse atendimento às famílias agricultoras da UBA, poderemos contribuir com que os produtos oriundos de um processo de produção orgânica e participativa dos agricultores familiares sejam produzidos com toda segurança em sua manipulação, desde o plantio, colheita, beneficiamento e distribuição. Isso possibilitará que o produto seja comercializado para bares, restaurantes, supermercados entre outros”, explica.

Reunião de alinhamento entre representantes da Diaconia, SENAI/PB, ONG Arribaçã e famílias agricultoras da ACEPAC/PB no Assentamento da Vila Lafayette

Já para o agricultor e Tesoureiro da ACEPAC/PB, Aguinaldo Silva, a criação da Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) significa um passo importante para autonomia financeira das famílias agricultoras. “Minha expectativa não é nem 100%, mas 1.000% pelo desenvolvimento e agilidade do Projeto de ter nos capacitado como agricultor e agricultora, voltando à agroecologia e trazendo para nós novas funções na agricultura. Antes éramos só famílias agricultoras no milho e no feijão. Hoje temos uma diversidade de culturas e essa Unidade de Beneficiamento está trazendo uma sustentabilidade financeira e poderemos ter a nossa própria renda”, explica.

De acordo com a agricultora e Presidenta da ACEPAC/ PB, Amanda Procópio, a iniciativa vai auxiliar, sobretudo, as mulheres agricultoras que hoje representam mais de 30% das famílias cadastradas na associação. “Estamos aumentando a cadeia de produção dos nossos roçados e poderemos ter acesso aos mercados, a partir dos produtos que plantamos nos nossos roçados, gerando mais renda e autonomia para as famílias agricultoras permanecerem no campo por terem condições financeiras para seu sustento, principalmente para as mulheres que estão batalhando, porque hoje na ACEPAC/PB temos um número muito grande de mulheres”.

Para além do fio do algodão – De passo a passo, o apoio do Projeto Algodão às famílias da ACEPAC/PB tem possibilitado conquistas importantes, como a venda do fio orgânico diretamente para o mercado orgânico e o comércio justo, iniciativa pioneira para a organização de base da agricultura familiar. Esse avanço da cadeia de valor representou praticamente o dobro do preço que é pago pela pluma orgânica.  

Para o assessor técnico da ONG Arribaçã, Almir Freitas, que realiza o acompanhamento técnico das atividades dos agricultores e agricultoras no Sertão do Cariri/PB, essa nova estruturação para fabricação dos alimentos dos consórcios vai garantir a valorização dos produtos da agricultura familiar. “A gente já vem de uma estruturação da venda do fio do algodão, e com a implantação dessa UBA vamos poder agregar valor às culturas como milho, feijão e gergelim, que antes eram entregues ao comércio local por atravessadores e agora vamos acessar o comércio formal e com valor justo”, observa.

Para continuar nesse caminho de fortalecimento dos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânica (OPACs), a criação das UBAs já está acontecendo também em outros territórios apoiados pelo Projeto Algodão, como o Sertão do Pajeú/PE e Sertão do Apodi/RN. Segundo o técnico do Projeto Algodão no território do Sertão do Pajeú, Erickson Macena, que também dá suporte às atividades realizadas no Cariri paraibano, as expectativas é que no futuro os alimentos dos consórcios cheguem nas prateleiras da sociedade.

“A Diaconia tem apoiado o Projeto em trazer o mercado justo para o algodão em consórcios agroecológicos. Mas também agora, a partir de uma parceria forte com a Inter-American Foundation (IAF), vamos implementar três UBAs para apoiar e agregar valor aos produtos dos consórcios. O objetivo que a Diaconia tem é de trazer mais renda para as famílias agricultoras e mercados para outros produtos, além de introduzir produtos orgânicos de qualidade e contribuir para a segurança alimentar do mercado local e em outras regiões”, afirma o técnico do Projeto Algodão no território do Sertão do Pajeú – PE, Erickson Macena.

A importância da criação do Fundo Rotativo (FRS) – Para que essa inserção no mercado aconteça de forma justa, o Projeto Algodão implementou junto à ACEPAC/PB um FRS que permitirá o adiantamento do valor da matéria prima às famílias garantidoras, assim como os demais custos para o beneficiamento dos produtos na UBA. Após a comercialização, o valor agregado líquido será repassado às famílias, retorno do adiantamento ao FRS, e uma parte para o Fundo de Incentivo à Autonomia Financeira (FIAF) da ACEPAC/PB, a fim de que seja utilizada para manutenção das atividades gerenciais.

De acordo com o coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos/Diaconia, Fábio Santiago, esse fundo rotativo é fundamental para “viabilizar outros custos que compõem o beneficiamento dos produtos (rotulagem, embalagem, energia, distribuição, serviço, entre outros). É garantir uma liquidez até o retorno ao FRS pela comercialização às famílias agricultoras. É uma inovação, visando criar o desenvolvimento sustentável de novas cadeias produtivas ao mercado com o selo brasileiro orgânico. Servirá de referência para os OPACs apoiados pelo Projeto e outras iniciativas de organizações de base da agricultura familiar.

Além disso, Santiago explica que foi concluída uma análise de viabilidade econômica das cadeias de valor dos produtos, que apresenta estimativas de preços e perspectivas de distribuição para que os produtos cheguem nas prateleiras de mercados da região Nordeste e outras. Sendo assim, “já temos um mapeamento das famílias que irão garantir o fornecimento das matérias-primas para produção dos alimentos que serão beneficiados. Também estamos trabalhando na geração de conhecimento através da produção de vídeos sobre o protocolo de boas práticas para o pós-colheita do milho, feijão, girassol a fim de orientar as famílias agricultoras e garantir que os alimentos cheguem com qualidade nas UBAs para o processo de beneficiamento”, afirma.

Registros da gravação dos vídeos sobre os protocolos de pós-colheita do milho, amendoim, feijão e girassol na Unidade de Aprendizagem e Pesquisa (UAP), Comunidade de Lagoa da Volta, Porto da Folha – SE.

Sobre o Programa Alimentos Seguros (PAS) – O programa é uma ação nacional em parceria do Sistema S (Senac, Sesi, Sesc e Sebrae), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuárias.) Tem como objetivo o ensinamento de técnicas sobre Segurança de Alimentos e a implantação das Boas Práticas e do Sistema APPCC (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle) nos estabelecimentos que produzem alimentos.

A união dessas instituições permitiu a criação do Programa e garante hoje a manutenção das atividades que são desenvolvidas em todo país, sensibilizando os trabalhadores e trabalhadoras que atuam na produção e na manipulação de alimentos prontos para o consumo sobre os cuidados que devem ser observados na promoção da segurança dos alimentos. Os principais benefícios são: Maior produtividade e competitividade para as empresas; Alimentos seguros para o consumidor; Ampliação de mercado; Atendimento à legislação; Manipulador capacitado com técnicas de higiene na manipulação de alimentos.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). O Projeto conta com o apoio financeiro da Laudes Foundation, da Inter-American Foundation (IAF) e do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE. O Projeto ainda é parceiro com o Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/Governo do Paraguai/IBA. Para a execução do Projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGs locais com experiência em Agroecologia que serão responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânico (OPACs) e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó da Paraíba. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e Chapada assumiram conjuntamente as ações do Projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.