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Projeto Algodão celebra pioneirismo do pesquisador Pedro Jorge no semiárido nordestino

Por Acsa Macena


A homenagem aconteceu na Associação Agroecológica de Certificação Orgânica Participativa do Cariri Paraibano (ACEPAC/PB) e contou com a presença dos cofundadores e integrantes da VERT/VEJA Shoes, representantes do Instituto SENAI Têxtil da Paraíba, da ONG Arribaçã, Rede Ecovida (RS), agricultores e agricultoras

Participantes do evento de homenagem a Pedro Jorge no Assentamento Zé Marcolino (Prata/PB)

Terra avermelhada, céu azulado e raios de sol se apresentam no Assentamento Zé Marcolino, município da Prata, no Cariri paraibano, para receber visitantes do mundo inteiro que vêm celebrar uma trajetória construída há mais de trinta anos sobre o algodão em consórcios agroecológicos. A chegada e o encontro com quem dedicou a vida junto com agricultores e agricultoras diante de um cenário de incertezas, partilhas, persistência e sensibilidade para construção de saberes sobre o ouro branco do semiárido nordestino.

Através do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, coordenado por Diaconia, foi organizado um evento junto com instituições parceiras para celebrar o legado do pesquisador do Esplar Pedro Jorge, engenheiro Agrônomo e Mestre em Fitotecnia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), de 81 anos, nas pesquisas participativas com famílias agricultoras cearenses sobre o algodão orgânico. Na ocasião, a coordenação do Projeto entregou uma placa em reconhecimento pelo seu pioneirismo no algodão em consórcios agroecológicos no semiárido nordestino.

Pedro Jorge recebe placa de homenagem por Fábio Santiago, coordenador do Projeto

“Pedro Jorge criou as bases técnico-científicas para o cultivo do algodão em faixas consorciadas e alternadas com outras alimentares, melhoria do solo com matéria orgânica, plantio nas primeiras chuvas, práticas conservacionistas (curvas de nível), espaçamentos largos e principalmente a questão da convivência com o bicudo do algodoeiro. Então tudo isso gerou as primícias das pesquisas que impulsionaram outras instituições do ramo a entrarem no processo de produção de algodão em consórcios agroecológicos”, explica Fábio Santiago, coordenador do Projeto.

E acrescenta: “Essa homenagem é um reconhecimento justo e digno porque se Pedro Jorge não tivesse feito isso, talvez não teríamos o movimento do algodão agroecológico que foi ganhando capilaridade. O Pedro Jorge significa o início de uma caminhada do Projeto, a partir de pesquisas básicas participativas, onde um grupo de agricultores e agricultoras testou e experimentou por anos qual seriam as bases técnicas, científicas e de mercado justo para o algodão agroecológico no Semiárido brasileiro”.

Pedro Jorge no Assentamento Zé Marcolino (Prata/PB) no evento de homenagem

O evento de homenagem contou com a presença dos cofundadores e integrantes da VERT/VEJA Shoes, representantes do Instituto SENAI Têxtil da Paraíba, da ONG Arribaçã, Rede Ecovida (RS), agricultores e agricultoras da Associação Agroecológica de Certificação Orgânica Participativa do Cariri Paraibano (ACEPAC/PB).

Para Pedro, que não sabia da surpresa, o evento foi emocionante, muito embora tribute as conquistas às famílias agricultoras presentes ao longo de sua caminhada: “É uma generosidade muito grande das pessoas, das instituições que contribuíram para esse evento, do que mesmo o meu merecimento. Se eu tenho algum merecimento, talvez tenha sido pelo fato de sempre ter compartilhado com os agricultores e agricultoras esse aprendizado recíproco enquanto técnico, e deles e delas enquanto agricultores e agricultoras”, diz.

Pedro Jorge no Assentamento Zé Marcolino (Prata/PB) no evento de homenagem

Já para sua filha Juliana Ferreira, que quando criança viajava com o pai e participava de suas vivências com as famílias agricultoras, o sentimento é de orgulho e reconhecimento pelos resultados que estão só começando a se apresentar: “Costumava dizer: ‘Meu pai não tem dinheiro para nada. Ninguém ganha dinheiro com isso. Já ele dizia’: ‘Não quero ser rico, eu quero atingir meus objetivos’. Eu ficava aquela criança impressionada e teve um momento na vida que eu disse: ‘Meu pai é o cara que não é rico, mas viajou o mundo’. Isso graças ao conhecimento dele de não só passar para os agricultores e agricultoras, mas aprender junto com eles e com elas até sair para fora e representar o Brasil e o algodão agroecológico no mundo. Sempre nesse sentido de não só repassar, mas de dizer que é possível”, explica.

Juliana Ferreira, filha de Pedro Jorge, no Assentamento Zé Marcolino (Prata/PB) no evento de homenagem

Para abrilhantar a ocasião, esteve presente o agricultor cearense João Félix da comunidade de Riacho do Meio, município de Choró -CE, um dos amigos e dos primeiros a participar das pesquisas de Pedro. Segundo ele, “Pedro foi o responsável pela vinda do Projeto Algodão e por tantos outros projetos que envolvem a juventude, um projeto que mudou a vida da gente em todos os aspectos, principalmente no conhecimento e parceria na relação de gênero porque a gente era um pouco bruto, e hoje com o conhecimento que Pedro trouxe a gente é totalmente diferente, sabemos respeitar, entrar e sair. Então o maior legado que Pedro deixa é essa união de países, união de um povo, união das ONGs, união dos agricultores e agricultoras”, considera.

Juliana, filha de Pedro Jorge, segura quadro com fotografia de João Félix, entregues pela VERT shoes

Alegria também para a agricultora Sandra Silva, vinculada à ACEPAC, que ainda não conhecia o pesquisador pessoalmente, só de ouvir falar: “Já conhecia Pedro Jorge pela boca de outras agricultoras, só posso dizer muito obrigada por tudo que ele fez por nós”.

Agricultora Sandra Silva no Assentamento Zé Marcolino (Prata/PB) em evento de homenagem a Pedro Jorge

Segundo o presidente do Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade Orgânica (OPAC) da Rede Ecovida e coordenador do Centro Ecológico do Rio Grande do Sul, engenheiro agrônomo, mestre em agroecologia e escritor, Laércio Meirelles, a contribuição de Pedro Jorge permitiu aos agricultores e agricultoras um resgate da cultura do algodão em consórcios agroecológicos. “Se existe essa dinâmica bonita ao redor do algodão orgânico no Nordeste brasileiro, envolvendo mais de dez territórios com um número expressivo de OPACs organizados, o algodão sendo comercializado dessa forma bonita, permitindo ao agricultor e agricultora resgatar uma cultura tão histórica e vender em condições favoráveis, eu diria que sem o Pedro Jorge não haveria isso”, afirma.

Laércio Meirelles no Assentamento Zé Marcolino (Prata/PB) em evento de homenagem a Pedro Jorge

Já segundo o cofundador da VEJA fair trade  (VERT no Brasil) François Ghislain Morillion, empresa de calçados francesa com práticas sustentáveis e proposta de valorização do algodão agroecológico para fabricação dos tênis vendidos mundialmente,  compradora da pluma do algodão com certificação orgânica participativa dos OPACs, a contribuição de Pedro Jorge veio para favorecer a agricultura familiar no semiárido nordestino.

François Ghislain Morillion no Assentamento Zé Marcolino (Prata/PB) em evento de homenagem a Pedro Jorge

“Não adianta ser o melhor cientista e não ter essa vontade no coração de estar sempre do lado da agricultora e do agricultor. Então Pedro conseguiu uma maneira de unir duas coisas que raramente se juntam: de um lado a ciência, do outro o carinho. Ele consegue de uma maneira extraordinária conciliar esses dois pilares”, afirma. A marca internacional criou um par de tênis personalizado para o pesquisador, como reconhecimento pela sua contribuição.

Pedro Jorge recebe tênis personalizado da VERT/VEJA Shoes

O reconhecimento das contribuições do pesquisador Pedro Jorge também foram enfatizadas por Sebastien Kopp, também cofundador da VEJA fair trade (VERT no Brasil). “Ele nos ensinou algodão orgânico, ele nos ensinou a cuidar dos produtores de algodão orgânico. Tínhamos 25 anos e não sabíamos nada. Na época, compramos 2 toneladas de algodão orgânico e agroecológico para 30 produtores. No ano passado, compramos 300 toneladas de algodão orgânico no Brasil e Peru para pouco menos de 1.000 produtores. Pedro, nosso caminho e nossas vidas teriam sido tão diferentes sem você. Há um pouco de você em cada par da VEJA”, relata Sebastien.

Sebastien Kopp, cofundador da VEJA fair trade (VERT no Brasil)

Já para a supervisora do SENAI Têxtil da Paraíba, Mayne Ramos, foi gratificante participar do evento e perceber que avanços tecnológicos como os implantados hoje pela empresa, a exemplo da fiação da pluma do algodão com certificação orgânica participativa, já era uma perspectiva antiga levantada pelo pesquisador. “Eu fiquei emocionada com essa homenagem a Pedro Jorge. Sinto-me honrada em representar o SENAI e poder conhecê-lo. Acho que eu poderia passar o resto do dia ouvindo a história dele porque quando as pessoas começaram a falar eu não queria mais parar de ouvir”, expressa Mayne Ramos, Supervisora do SENAI Têxtil da Paraíba.

Mayne Ramos, Supervisora do SENAI Têxtil da Paraíba

O momento também foi de celebração de conquistas para a ONG Arribaçã, que realiza o acompanhamento técnico das atividades dos agricultores e agricultoras da ACEPAC/PB. “Nós temos o algodão como a nossa estrela maior e trabalhamos com o desenvolvimento sustentável, econômico, educação do campo e o nosso carro chefe é o algodão agroecológico. Devemos isso à sabedoria lá em 2007, a partir da rede de algodão agroecológico com Pedro Jorge, onde a semente foi plantada e estamos disseminando o algodão agroecológico até hoje”, explica Izabel Cristina, diretora da ONG Arribaçã.

Izabel Cristina, diretora  da ONG Arribaçã

O Projeto Algodão e o avanço da cadeia de valor do algodão – O pesquisador Pedro Jorge deu início às primeiras relações para comercialização do algodão agroecológico no Nordeste, caminhos esses que geraram a base para o modelo desenvolvido atualmente pelo Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos.

Exposição de fotos na ACEPAC/PB em homenagem à trajetória de Pedro Jorge

“Existe ao longo do processo inovações que se somam as contribuições de  Pedro Jorge, mas foi ele que junto com esse grupo gerou a base de como o algodão deveria ser diferente do que era para trás, a partir da conservação da terra, plantio de outras culturas e relação de mercado justo. Ao longo da caminhada houve várias inovações. O algodão era vendido em rama, então fomos nós quem trouxemos o uso de máquinas descaroçadeiras para a venda da pluma do algodão agroecológico, assim como a criação das Associações Rurais a partir dos Sistemas Participativos de Garantia (SPGs), para que o controle da qualidade orgânica participativa pudesse gerar o Selo Brasileiro Orgânico”, explica Santiago.

Fábio Santiago no Assentamento Zé Marcolino (Prata/PB) em evento de homenagem a Pedro Jorge

Bicudo do algodoeiro e dificuldades na década de 1990 – É possível considerar que o algodão é o ouro branco do semiárido nordestino porque favorece uma cultura financeira para as famílias agricultoras, não sendo apenas de subsistência para alimentação. “Por outro lado, na década de 80, houve a derrocada do algodão no semiárido brasileiro por causa de problemas fundiários, de importação, perda e fertilidade do solo, preço, abertura para outros países e a chegada do bicudo do algodoeiro em 1984, inseto que compromete a produção do algodão, que trouxe uma mudança do mapa do algodão do Brasil que se deslocou para o Centro Sul do país por apresentar mais investimentos técnicos. Isso afetou muito a economia do Nordeste brasileiro”, explica Santiago.

Sendo assim, o coordenador do Projeto Algodão observa que foi diante desse cenário que “um grupo de agricultores e agricultoras procuraram Pedro Jorge para que fosse retomado o algodão, mas em outras bases, a partir da agroecologia, seguindo a conservação do solo, a relação direta com o mercado e preço justo. Pedro começou essa pesquisa durante quatro anos.  No início deu errado, mas depois de 94 a 98, se avançou e foram criadas as bases científicas”, conta.

Sobre Pedro Jorge – Tem 81 anos. É dono de uma simpatia e memória ímpar. Cearense, natural de Pacoti, Guaramiranga, onde viveu até os cinco anos de idade. Pedro é o mais velho de três irmãos. Possui graduação em Agronomia pela Escola de Agronomia da Universidade Federal do Ceará (1964) e mestrado em Fitotecnia (Produção Vegetal) pela Universidade Federal de Viçosa (1966). Pedro Jorge é um dos fundadores do Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria, muito conhecido por sua contribuição para o fortalecimento da agricultura familiar, especialmente no desenvolvimento de sistemas agroecológicos com ênfase na cultura do algodão.

Pedro Jorge no Assentamento Zé Marcolino (Prata/PB) no evento de homenagem

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). O Projeto conta com o apoio financeiro da Laudes Foundation, da Inter-American Foundation (IAF) e do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE. O Projeto ainda é parceiro com o Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/Governo do Paraguai/IBA. Para a execução do Projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGs locais com experiência em Agroecologia que serão responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânico (OPACs) e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó da Paraíba. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e Chapada assumiram conjuntamente as ações do Projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.