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Sertão do Araripe (PE) conclui circuito das Festas da Colheita

Por Tadzio Estevam


1ª safra do território registrou 27,5 toneladas de algodão em rama (pluma e caroço), 60 toneladas de milho, 43 de feijão e 8,5 de gergelim

Agricultoras e agricultores do projeto na sede do CAATINGA em Ouricuri (PE)

As comemorações da primeira safra do projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos foram concluídas com a última Festa da Colheita realizada pelo território do Sertão do Araripe (PE) no último dia 19 de dezembro, no município de Ouricuri, a 600 quilômetros do Recife. A celebração da Agrobiodiversidade local reuniu na sede da ONG CAATINGA – parceira do projeto -, todos os grupos locais formados por agricultoras e agricultores que integram o projeto e que são dos municípios de Ouricuri, Trindade, Araripina, Ipubi, Santa Cruz, Santa Filomena, Parnamirim, Bodocó, Exu e Granito. Também estiveram presentes representantes de outras organizações parceiras como a Embrapa Algodão, ONG CHAPADA, governo municipal de Ouricuri e da Associação de Agricultoras e Agricultores Agroecológicos do Araripe (Ecoararipe).

Momento contou com poesia, música e versos

Para atender à programação que foi planejada para o evento, a festa da colheita no território teve que ser dividida em duas partes. A primeira aconteceu durante a tarde na sede do CAATINGA. Lá, agricultoras, agricultores dos grupos locais, parceiros, parceiras e as futuras famílias que irão se somar às 438 já cadastradas no projeto, se reuniram para fazer um balanço do primeiro ano de atividades. O Sertão do Araripe mereceu destaque diante de todos os outros territórios. Somente nele, a primeira safra registrou 27,5 toneladas de algodão em rama, sendo 10,8 (t) em pluma, e 16,7 (t) em caroço. O milho registrou um total de 60 toneladas, o feijão 42 (t) e o gergelim 8.500 mil quilos. “Aqui registramos a maior colheita de algodão agroecológico com certificação participativa de Pernambuco e, também, dos demais territórios do projeto. Um verdadeiro sucesso”, comemorou o coordenador do projeto pela Diaconia, Fábio Santiago.

Fábio Santiago evidenciou o fortalecimento dos grupos locais para o bom desempenho do projeto no Sertão do Araripe

Fábio ainda destacou outros fatores que contribuíram para a excelente safra no Araripe. “Os grupos locais, formados pelos agricultores e agricultoras, foram os grandes responsáveis pela safra acima do esperado no Sertão do Araripe. Para o próximo ano, o foco será aumentar ainda mais o fortalecimento desses grupos para que o projeto alcance mais famílias. Gostaria de parabenizar a Ecoararipe, associação que representa e conduz com muita maestria esses grupos. Também ressalto a participação de todas as organizações locais envolvidas nesse projeto como o CAATINGA e o CHAPADA, além da Embrapa Algodão, responsável pela formação técnica das famílias e dos técnicos e técnicas das organizações. Este é um momento de celebração”, concluiu. Lídio Parente, presidente da Ecoararipe, reforça.  “Este é um momento festivo. Finalizando um ano de um projeto que trouxe a esperança de ver algodão brotar da terra de volta. Acreditamos num futuro melhor, mais produtivo, com mais responsabilidade. Agradeço aos parceiros e parceiras. Essas famílias são e serão o futuro desse projeto”.

Hirlana Fernandes ressaltou a importância da mulher no projeto

A mesa estava bem representada por sertanejas. Hirlania Fernandes, do CAATINGA destacou o papel da mulher no projeto. “Estamos celebrando a colheita do conhecimento, do fazer juntos e juntas. Acreditamos muito na força feminina que este projeto propõe. Acreditamos também que toda essa produção consiga atingir outros e outras agricultoras, as juventudes, trocando conhecimento. Acreditamos na construção coletiva. Agradecemos à Diaconia por estar conosco nessa caminhada”. A tesoureira da Ecoararipe, Socorro Neto, agricultora do município de Parnamirim, falou da importância da associação para as famílias. “A associação oferece a garantia que nós agricultoras e agricultores precisamos para comercializar nossos produtos. Ela veio com essa intenção de trabalhar em prol da gente. Quem está associada a ela está assegurada. Esse projeto veio para acender uma fogueira nas nossas vidas. Como agricultora, eu acredito que nós só temos a ganhar”.

Roda de conversa na praça principal de Ouricuri

Após a celebração da tarde, todo o público foi convidado para ir ao centro de Ouricuri prestigiar a abertura oficial dos festejos natalinos do município, assim como conhecer a feira agroecológica que funciona regularmente nas noites das quintas-feiras. Na ocasião, aconteceu o lançamento dos produtos à base do gergelim como o óleo, o tahine e o gergelim fracionado, fabricados a partir de uma oficina realizada no municipio de Exu, no final do mês de novembro, e que já estão sendo comercializados com o selo de produto orgânico com certificação participativa. A noite também contou com uma roda de conversa sobre o projeto, agroecologia e da importância da alimentação livre de venenos.

Durante a feira agroecológica, os produtos fabricados através do beneficiamento do gergelim como o óleo, o tahine e o fracionado estiveram à venda

FIPA – O Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, por meio do Fundo de Incentivo Produtivo e Ambiental (FIPA), fará um aporte financeiro da ordem de aproximadamente R$ 300 mil, divididos para os territórios do Sertão do Araripe (PE) e Serra da Capivara (PI). O objetivo será viabilizar a entrada qualificada dos produtos no mercado e superar as principais dificuldades, evitando que a produção termine no mercado informal. Os recursos serão aplicados no processo de beneficiamento, logística de armazenamento e capital de giro durante o processo do algodão. Serão beneficiadas a Ecoararipe e a Associação dos Produtores e Produtoras Agroecológicos do Semiárido Piauiense (APASPI). No Araripe, o Fundo destinará recursos para a reforma de um galpão cedido pelo CAATINGA. O prédio está instalado no município de Ouricuri, numa região estratégica para as mais de 400 famílias agricultoras que estão produzindo algodão. No Piauí, o projeto é para a construção de um galpão de 100 metros quadrados para exercer as mesmas funções do equipamento pernambucano.

Além disso, para ambos territórios os valores ainda contemplarão outras ações como, por exemplo, a instalação de um campo de multiplicação de sementes e a criação do fundo rotativo solidário que irá ajudar às famílias a prepararem o terreno no tempo certo para o plantio, assim como capital de giro para o processo de comercialização.

“O projeto pensou nesse fundo, exatamente, para suprir as necessidades desses territórios que não foram contempladas na elaboração do projeto. Verificamos esses gargalos e sugerimos que as associações elaborassem seus projetos para que o Fundo pudesse aprovar e liberar esses recursos. O momento é de festejar essa conquista, uma vez que dada essa estrutura concluída e funcionando, o algodão e até outras culturas serão inseridas mais rapidamente no mercado consumidor”, disse o assessor do projeto algodão, Ricardo Blackburn.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Embrapa Algodão e a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória). O projeto conta com o apoio técnico e financeiro do Instituto C&A.

Para a execução do projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONG’s locais com experiência em Agroecologia que serão responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os OPAC’s e a produção agroecológica.

No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONG’s Caatinga e Chapada assumiram conjuntamente as ações do projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro, respectivamente.

No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do projeto.