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“Transformador e empoderador”, afirma consultora italiana independente de moda sustentável sobre o modelo de cultivo do Projeto Algodão

Por Acsa Macena


Após conhecer as experiências das famílias agricultoras apoiadas nos territórios da Serra da Capivara (PI) e Sertão do Pajeú (PE), Marzia Lanfranchi ressaltou o impacto socioambiental do cultivo do algodão em consórcios agroecológicos para ressignificação da indústria têxtil  

Campo consorciado de algodão em São Raimundo Nonato – Serra da Capivara – Piauí. Créditos: Cotton Diaries

Cada hectare cultivado por famílias agricultoras no Sertão do Pajeú-PE, apoiadas pelo Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, reduz a emissão de mais de 1 tonelada dos gases de efeito estufa, em referência com o modelo do cultivo do algodão convencional do Semiárido australiano. Os dados da pesquisa de emissão de Gases do Efeito Estufa (GEE), realizada pelo Projeto Algodão/Diaconia em 2020 através da ferramenta KPMG/Laudes Foundation, mostram que o cultivo consorciado do algodão com certificação orgânica participativa é capaz de contribuir para adaptação e mitigação de mudanças climáticas que ameaçam a biodiversidade do ecossistema e toda humanidade.

Isso é possível através da eliminação do uso de insumos provenientes de matéria prima fóssil, como a adubação e agrotóxicos químicos sintéticos, que contribuem efetivamente para reduzir os impactos que alargam o aquecimento do planeta, conforme explica Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão/Diaconia.

“O algodão consorciado com culturas alimentares, forrageiras e de adubação verde é baseado num modelo que proporciona regras e boas práticas para certificação orgânica participativa, que não permite a utilização de insumos não manufaturados pela indústria química, e por outro lado a manutenção e elevação do estoque de carbono do solo. Sabe-se que o solo é o segundo maior reservatório de carbono do planeta, ficando atrás dos oceanos. As práticas de base agroecológica do solo, como adubação orgânica, plantas de adubação verde, cobertura morta, preparo mínimo do solo e reposição permanente de resíduos orgânicos são fundamentais como sumidouro de carbono da atmosfera. Isso é um forte aliado para diminuição de gases de efeito estufa, contribuindo para adaptação de aumento de temperatura do ar”, explica.

É diante de tais contribuições para mitigação e adaptação de mudanças climáticas que o projeto apoia o desenvolvimento do algodão em consórcios agroecológicos pela agricultura familiar, trazendo, inclusive, contribuições para a indústria da moda sustentável, assim como impulsionando uma economia circulante para as organizações de base da agricultura familiar. Só para se ter uma ideia, até 2030 a indústria mundial de vestuário e calçados terá crescido mais de 80%, chegando a 102 milhões de toneladas de roupas e acessórios e pressionando os recursos disponíveis no planeta (Boston Consulting Group/ 2019).

A indústria têxtil é a segunda mais poluidora do mundo, ficando atrás somente da indústria do petróleo, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Por isso, experiências sustentáveis no cultivo do algodão e em bases agroecológicas são capazes de impulsionar e motivar inciativas de diferentes países a virem conhecer o modelo que se configura não só como uma saída, mas como resposta à necessidade de reconstruir caminhos sustentáveis que minimizem o impacto global do cultivo do algodão convencional em sua relação com a indústria têxtil.

Agricultora multiplicadora Lucineide Cordeiro, ligada à ASAP-PE, em campo consorciado de algodão na comunidade Laje do Gato, Afogados da Ingazeira – Sertão do Pajeú/PE

Exemplo disso é a consultora independente de moda e cofundadora do Cotton Diaries, a italiana Marzia Lanfranchi. O Cotton Diaries, em português, “Diários de Algodão”, é uma comunidade global comprometida em mapear e tornar a cadeia de suprimentos do algodão mais sustentável, além de apoiar marcas que buscam uma relação sustentável entre a moda e o meio ambiente através do uso do algodão orgânico.

Após percorrer diversos países como os EUA, Índia, Turquia e outros para conhecer histórias inspiradoras de agricultores e agricultoras que cultivam o algodão, veio ao Nordeste do Brasil para uma imersão nas práticas vivenciadas por agricultoras e agricultores que se organizam nos Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânica (OPACs), associações rurais de certificação orgânica participativa  em conferir o Selo Orgânico Brasileiro aos produtos produzidos em Unidades Familiares Produtivas (UFPs).   

“Em 2017, fundei o Cotton Diaries, um projeto que foi criado para trazer à luz as histórias de pessoas que estão transformando a maneira como cultivamos, produzimos, adquirimos e falamos sobre algodão. Durante uma ligação com Beto Bina, fundador da Far farm e funcionário da Veja, percebi que a realidade do Brasil era tão única, eu tinha que ver com meus olhos para acreditar. Avançando alguns anos e uma pandemia no meio, aqui estou: conhecendo famílias do Nordeste do Brasil que trabalham com algodão agroecológico”, explica.

Marzia Lanfranchi , co-fundadora da Cotton Diaries, em campo de algodão consorciado do agricultor multiplicador Jonilson Sousa, ligado à APASPI – PI, assentamento Malhada Inca, Canto do Buriti – PI

O impacto da certificação orgânica participativa – Após conhecer dois dos sete territórios apoiados pelo Projeto Algodão, sendo eles Serra da Capivara-PI e o Sertão do Pajeú – PE, Marzia descreveu que o  o impacto socioambiental do modelo de cultivo desenvolvido pelo Projeto Algodão com as famílias agricultoras do Nordeste do Brasil é “transformador e inspirador”. A partir disso, também observou as potencialidades da certificação orgânica participativa em relação a outros modelos presentes no mundo. “Há um ano eu não sabia o que era uma certificação participativa e fiquei bastante frustrada com o incômodo do sistema de vigilância’ da certificação de terceiros. A certificação usual foi descrita para mim como um processo humilhante, de alto custo que retorna muito pouco ao agricultor e agricultora, exceto um selo de aprovação e muita papelada”, diz.

Representantes da VERT Shoes, Diaconia, Embrapa Meio Norte, assessoria técnica da Cáritas Diocesana e agricultora multiplicadora (Valquíria Viana) ligada à APASPI-PI, em campo consorciado de algodão na Comunidade Quilombola Lagoa dos Prazeres – São Raimundo Nonato – PI

Sobre esse assunto, Marzia ainda acrescentou: “O sistema participativo abre meus olhos para uma nova forma de não apenas certificar, mas exercitar a inteligência coletiva, treinando a comunidade para se organizar através de um processo democrático que crie mais confiança e vínculos. Embora demore mais tempo para construir, parece funcionar para o bem a longo prazo. Acredito que o modelo participativo brasileiro deveria ser melhor estudado e adaptado a diferentes contextos, não só para certificar o campo, mas para capacitar os agricultores a se organizarem, compartilharem conhecimento por meio de um processo dignificante”, explica.

Uma das agricultoras que recebeu a visita da italiana foi a vice-presidente da Associação Agroecológica do Pajeú – ASAP-PE e agricultora multiplicadora Joana Darck, do município de Sertânia-PE. “Com visitas como a de Marzia, vemos que nosso trabalho está sendo valorizado e que vale a pena cada esforço que fazemos para continuarmos na agricultura familiar. É muito importante ver que estou contribuindo com o modelo de cultivo sustentável através do Sistema Participativo de Garantia (SPG), além de não usar agrotóxicos porque sei o que estou produzindo”, conta.

Equipe de Diaconia e agricultora multiplicadora Joana Darck, em campo consorciado do algodão no Assentamento Jacu zona rural de Sertânia – Sertão do Pajeú/PE

Cultivo consciente, indústria da moda sustentável – Considerando que a indústria da moda é uma das mais poluentes no mundo, é importante destacar que especialmente no Brasil, a produção do algodão convencional utiliza grandes quantidades de aditivos químicos sintéticos (10% do volume total de pesticidas químicos sintéticos utilizados, segundo dados da Modefica/2020). Diante desse contexto, Marzia acredita que o papel da agricultura familiar é crucial para promoção de um modelo de cultivo sustentável para o planeta.

“Precisamos reconstruir melhores relacionamentos com a natureza da qual vivemos, nossa comunidade e as pessoas dentro da cadeia de suprimentos da moda, com agricultores e agricultoras incluídos/as . Olhei para eles e elas e encontrei um modelo inspirador para corrigir esse tecido social que estamos prejudicando, além de nos reconectar com o meio ambiente. Vi famílias organizadas, com segurança alimentar, muito conscientes de seu impacto ambiental e social, suas práticas e o que melhorar a seguir”, explica.

Campo consorciado de algodão em Laje do Gato – Sertão do Pajeú-PE

Tal colocação da consultora independente também está presente nas percepções das famílias agricultoras que receberam a visita em seus roçados. Para Jonilson Sousa, agricultor multiplicador e presidente da Associação dos/das Produtores/as Agroecológicos do Semiárido Piauiense – APASPI, a escolha pelo cultivo em bases agroecológicas poderá reduzir os danos para as próximas gerações. “Se a gente não cuidar do que pode destruir o meio ambiente no futuro, então, o que a gente está fazendo? Se não conseguirmos controlar as queimadas e o uso de veneno, daqui há uns anos, de repente, meus netos não terão o direito de ter uma vida normal. Temos que eliminar essa cultura que o brasileiro colocou na cabeça de que precisamos de veneno. Através do Projeto Algodão e do incentivo da rede de parcerias, estamos dando um show no nosso plantio”, comemora.

Já segundo o presidente da ASAP/PE e agricultor multiplicador Claudevan José, apesar das consequências já trazidas pela agricultura convencional, com o uso desenfreado de componentes químicos que aceleram as mudanças climáticas, é possível ir na contramão e contribuir para redução do avanço exponencial dos gases de efeito estufa. “Vamos ter um planeta mais sustentável, principalmente por causa da importância da não utilização de venenos no plantio. Então o Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos veio para fortalecer a produção das famílias agricultoras e, principalmente, diminuir a poluição do meio ambiente porque já começamos a sofrer muito com o aquecimento global”, afirma.

Agricultura familiar e o combate à insegurança alimentar  – Além de aproximar as famílias agricultoras ao comércio justo e ao mercado orgânico do algodão e outras culturas, o Projeto Algodão busca garantir a segurança alimentar e nutricional dos agricultores e agricultoras. Considerando que mais da metade (58,7%) da população brasileira convive com algum grau de insegurança alimentar, segundo dados do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN/2022), Marzia aponta a agricultura familiar como fundamental para diminuição desse tipo de situação.

“A agricultura familiar é e será fundamental não apenas para produzir os alimentos necessários para alimentar as pessoas, mas também para trazer de volta à vida esse apoio social, essa rede de segurança que só uma comunidade é capaz de tecer. Todos que entrevistei durante a minha estadia enfatizaram o quão crucial é seu papel para colocar comida na mesa de todos e todas”, explicou. Já para a agricultora multiplicadora Joana Darck, “a agricultura familiar é a base de tudo. Às vezes nos falta o dinheiro para comprar o alimento, mas nós produzindo, temos o que comer e não passamos fome”, considera.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). O Projeto conta com o apoio financeiro da Laudes Foundation, da Inter-American Foundation (IAF) e do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE. O Projeto ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, e com o Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/Governo do Paraguai/IBA. Para a execução do Projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGs locais com experiência em Agroecologia que são responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânico (OPACs) e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó da Paraíba. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e CHAPADA assumiram conjuntamente as ações do Projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.