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Três Unidades de Beneficiamento de Alimentos (UBAs) começam a ser reparadas para impulsionar a produção com certificação orgânica participativa no Semiárido nordestino

Por Acsa Macena


Os investimentos totais em máquinas, equipamentos, utensílios, construção e reforma física dos espaços, ultrapassam R$500.000,00. Destes, mais de R$127.000,00 devem retornar às organizações de base da agricultura familiar para o fortalecimento da sustentabilidade financeira

Reforma da Unidade de Beneficiamento de Alimentos (UBA) no Sertão do Cariri, município de Monteiro/PB – Assentamento Vila Lafaytte; Sertão do Apodi – Assentamento Ursulina – Caraúbas/RN; Sertão do Pajeú-PE – Assentamento Santa Rita – Serra Talhada – PE

Milho, feijão, gergelim e amendoim são algumas das principais culturas alimentares consorciadas com o algodão em regime de certificação orgânica participativa. Com o objetivo de oferecer condições às famílias agricultoras para o correto processamento desses alimentos, o Projeto Algodão, coordenado por Diaconia, tem incentivado a criação de três Unidades de Beneficiamento de Alimentos (UBAs) nos territórios do Sertão do Apodi (RN), Sertão do Pajeú (PE) e Sertão do Cariri (PB), em parceria com a ONG Arribaçã. Os reparos que já começaram a acontecer, entre construção e reforma física, ampliação dos espaços existentes e vistorias técnicas, estão previstos para ser concluídos até o início do próximo ano.

A proposta de elaboração das UBAs foi feita junto aos três dos 7 Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânica (OPACs) apoiados pelo Projeto Algodão no Semiárido nordestino. São os OPACs que realizam o controle da qualidade orgânica da produção agrícola através do funcionamento do Sistema Participativo de Garantia (SPG) em Unidades Familiares Produtivas (UFPs). No total, considerando os investimentos em máquinas, equipamentos, utensílios, construção e reforma física, o investimento total ultrapassa os R$500.000,00.

De acordo com o assessor técnico do Projeto Algodão/Diaconia Hélio Nunes, a comercialização dos produtos fracionados e beneficiados tem importância direta na geração de renda para as famílias agricultoras e possibilitará o acesso ao mercado orgânico diferenciado. “Construímos um plano de gestão de forma coletiva com os agricultores e agricultoras  dos OPACs onde foi contemplado todo aspecto dos protocolos de funcionamento das UBAs, considerando a legislação sanitária e ambiental com especificações técnicas, isso em parceria com o SENAI Têxtil e Confecções-PB que apoia esse processo no território do Cariri-PB, servindo de referência para os demais”.

Fornecimento da matéria-prima com certificação orgânica participativa – Já foi realizada a fase de mapeamento das famílias que irão fornecer a matéria-prima para a produção do tahine, óleo de gergelim, pasta de amendoim, gergelim granulado, amendoim cru e torrado, girassol ensacado, grão de milho e feijão ensacado. Além disso, está previsto também a comercialização das polpas de fruta de época no território do Cariri (PB) como goiaba, umbu, manga e caju, assim como também as sementes de plantas de adubação verde, tais como feijão guandu, feijão de porco, feijão lab lab, mucuna preta, muncuna cinza e crotalária.

Segundo o agricultor multiplicador e presidente da ASAP-PE Claudevan José, a comercialização dos alimentos como feijão, milho, gergelim, girassol e outros passará por uma valorização que não é contemplada pela venda à atravessadores. “Além do algodão, que já tem a venda garantida, estamos numa expectativa com a chegada da UBA para beneficiar os outros alimentos dos nossos roçados. Eu como agricultor familiar, sinto que isso é muito gratificante pois esperamos agregar valor aos nossos produtos, termos novas formas de comercialização e uma qualidade de vida melhor no campo”, explica.

Para a agricultora Maria Edileuza, que fará o processamento dos alimentos na UBA do Sertão do Cariri (PB), a expectativa é de um sonho prestes a se realizar. “Tínhamos um sonho de que viesse alguma coisa que ajudasse nós agricultores e agricultoras. Então a UBA veio como uma fonte de renda e sabemos que será garantida. E com esse sonho, eu como agricultora, que tenho meus filhos dependentes de mim, tem um que estuda faculdade e depende muito do meu trabalho, então essa renda, esse sonho veio como uma luz na minha vida”, afirmou.

Agricultora Maria Edileuza em campo consorciado com o algodão na Vila Lafayette, Sertão do Cariri (PB)

Para o assessor técnico de Diaconia Paulo Nobre, responsável pelo acompanhamento da implementação da UBA no assentamento Ursulina, município de Caraúbas-RN, a iniciativa contribuirá para o processo de autonomia das famílias agricultoras em todas as etapas de produção do alimento orgânico. “As famílias estarão ligadas diretamente a todo processo produtivo, de beneficiamento e comercialização. A ACOPASA fará toda parte gerencial da UBA, garantindo que as famílias estejam cada vez mais empoderadas do processo de produção e comercialização desses produtos”, afirmou.

Agricultora multiplicadora Maria Dilvânia, agricultor Manoel Caboclo e equipe de Diaconia no assentamento Ursulina, município de Caraúbas-RN.

Dos mais de meio milhões de reais que foram investidos através da parceria com o Inter-American Foundation (IAF) e Fundo Casa, R$127.544,00 foi custeado para incrementar os Fundos Rotativos Solidários (FRS) dos OPACs, que servirá como liquidez para cobrir os custos de produção de cada cadeia de valor.

O objetivo desse fundo é de proporcionar a sustentabilidade das atividades produtivas e o fortalecimento institucional dos OPACs, que para esse momento são contemplados: Associação Agroecológica do Pajeú – ASAP, Associação de Certificação Orgânica Participativa do Sertão do Apodi – ACOPASA/RN e a Associação Agroecológica de Certificação Participativa do Cariri Paraibano – ACEPAC/PB.

“É garantir uma liquidez até o retorno ao FRS pela comercialização dos produtos com certificação orgânica participativa. É uma inovação, visando criar o desenvolvimento sustentável de novas cadeias produtivas ao mercado com o selo brasileiro orgânico. Isso servirá de referência para os OPACs apoiados pelo Projeto e outras iniciativas de organizações de base da agricultura familiar”, explicou Fábio Santiago, coordenador do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos/Diaconia.

O FRS funciona como um tipo de empréstimo de crédito, que foi obtido através de repasses do projeto junto ao Fundo de Incentivo Produtivo e Ambiental (FIPA) e com apoio do Fundo Casa. Mediante a comercialização dos produtos que serão processados, parte do valor emprestado retornará à associação por meio do Fundo de Incentivo à Autonomia Financeira (FIAF), a fim de que seja utilizado para a manutenção das atividades gerenciais do OPAC.

Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos – É uma iniciativa coordenada por Diaconia, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS, Campus Sertão – Nossa Senhora da Glória/SE). O Projeto conta com o apoio financeiro da Laudes Foundation, da Inter-American Foundation (IAF) e do FIDA/AKSAAM/UFV/IPPDS/FUNARBE. O Projeto ainda é parceiro do SENAI Têxtil e Confecção da Paraíba, e com o Projeto + Algodão – FAO/MRE-ABC/Governo do Paraguai/IBA. Para a execução do Projeto nos territórios, a Diaconia estabeleceu parcerias com ONGs locais com experiência em Agroecologia que são responsáveis pelo assessoramento técnico para fortalecer os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade Orgânico (OPACs) e a produção agroecológica. No Sertão do Piauí, a Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato desenvolve as atividades na Serra da Capivara. No Sertão do Cariri, na Paraíba, o trabalho está sendo realizado pela Arribaçã, tendo ainda a parceria com o CEOP – Território do Curimataú/Seridó da Paraíba. No Sertão do Araripe, em Pernambuco, as ONGS CAATINGA e CHAPADA assumiram conjuntamente as ações do Projeto. As atividades no Alto Sertão de Alagoas e no Alto Sertão de Sergipe estão a cargo do Instituto Palmas e do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC), respectivamente. No Sertão do Pajeú (PE) e no Oeste Potiguar (RN), territórios onde a Diaconia já mantém escritórios e atividades, ela mesma se encarrega da implementação das ações locais do Projeto e parceria com CPT – RN.